segunda-feira, 3 de julho de 2023

Pesquisadores da Unicamp criam filme biodegradável a partir de casca de laranja e exoesqueleto de crustáceos

Link para texto completo: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2023/07/02/pesquisadores-da-unicamp-criam-filme-biodegradavel-a-partir-de-casca-de-laranja-e-exoesqueleto-de-crustaceos.ghtml

Resumo: Em busca de alternativas sustentáveis às embalagens de plástico, um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveu um filme biodegradável a partir do limoneno e da quitosana, substâncias presentes na casca da laranja e no exoesqueleto de crustáceos, respectivamente.

A criação também é capaz de preservar as características dos alimentos, como cheiro, cor e sabor, por mais tempo. Segundo o professor Roniérik Pioli Vieira, coordenador da pesquisa, ambos os componentes já são explorados em pesquisas, mas encontram entraves para a produção industrial.

"O grande diferencial no nosso caso que a gente utilizou o poli(limoneno), que é um derivado do limoneno mais estável, não volátil e a ideia é que ele atue como esse aditivo antioxidante, antimicrobiano, e com um potencial maior de eventualmente ser utilizado em larga escala", afirma.

Para criar o "novo" limoneno, mais estável e adequado à indústria, os pesquisadores utilizaram um processo de polimerização, que consiste em unir várias moléculas da substância para criar uma molécula maior, chamada de oligômero.

"A nossa ideia é que o poli(limoneno) seja considerado um aditivo multifuncional, que a gente possa aplicar desde a fabricação de embalagens. Pensamos em utilizar ele como um aditivo bloqueador de luz ultravioleta, antioxidante e antimicrobiano", explica Vieira.

Estágio inicial

O professor ressalta que a pesquisa está em um estágio inicial, mas a ideia é que, futuramente, o poli(limoneno) seja utilizado como aditivo de origem renovável em escala comercial. Para que isso seja possível, os pesquisadores têm testado a compatibilização do componente com materiais diferentes da quitosana.

"A ideia é que a gente prepare os filmes também em uma escala um pouco maior e em processos que simulem o industrial, ou seja, aqueles que envolvem altas temperaturas e taxas de deformação. [...] Com base nos dados preliminares, em termos de não volatilidade e estabilidade, a gente acredita que esse comportamento possa ser favorável no processo industrial", diz.

Em relação à quitosana, Vieira afirma que o uso em larga escala não deve ocorrer tão cedo, já que ela tem um custo mais elevado em relação aos plásticos tradicionais. "A quitosana é muito utilizada na área biomédica, então em materiais que tem um valor agregado um pouco maior, obviamente seria mais fácil, mais rápido desse material ir para a sociedade", ressalta.

Possibilidades

Além do uso em embalagens biodegradáveis, as equipes do Departamento de Engenharia de Materiais e Bioprocessos da Faculdade de Engenharia Química e do Centro de Tecnologia de Embalagem do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) também estudam outras possibilidades relacionadas ao poli(limoneno).

Há, por exemplo, uma linha de pesquisa que investiga as interações do aditivo com outros materiais biodegradáveis e compostáveis que já são industrialmente competitivos, e outra que explora estratégias para aumentar o rendimento do processo produtivo. Já uma terceira linha de pesquisa analisa aplicações do material na área biomédica.

"Como ele tem características antioxidantes e antimicrobianas, a ideia é incorporar esse aditivo na formulação de, por exemplo, polímeros para curativos, para que a gente possa ter curativos avançados, com características antioxidantes e antimicrobianas, que possam auxiliar no processo de cicatrização de lesões, evitando a proliferação de micro-organismos", afirma Vieira.

quinta-feira, 29 de junho de 2023

ChatGPT responde: Quais moléculas orgânicas de importância biológica já foram identificadas na Via Láctea?

Na nossa galáxia, a Via Láctea, foram identificadas diversas moléculas orgânicas de importância biológica. Essas moléculas são encontradas principalmente em nuvens interestelares, regiões onde ocorre a formação de estrelas e planetas. Alguns exemplos de moléculas orgânicas identificadas na nossa galáxia incluem:
  • Metanol (CH₃OH): É uma molécula simples e uma das mais abundantes na Via Láctea. O metanol é um precursor na formação de moléculas mais complexas, incluindo aminoácidos e açúcares.
  • Formaldeído (H₂CO): O formaldeído é um composto químico importante na química pré-biótica e pode estar envolvido na formação de aminoácidos.
  • Cianeto de hidrogênio (HCN): O HCN é uma molécula composta por carbono, nitrogênio e hidrogênio. É um precursor para a síntese de bases nitrogenadas, componentes dos ácidos nucleicos.
  • Álcool etílico (etanol, C₂H₅OH): O etanol também foi detectado em nuvens moleculares na Via Láctea. É uma molécula que possui uma importância biológica significativa na Terra.
  • Glicolaldeído (CH₂OHCHO): É uma molécula orgânica simples que desempenha um papel fundamental na formação de açúcares, incluindo a ribose, que é um componente dos ácidos nucleicos.
Essas são apenas algumas das moléculas orgânicas identificadas na Via Láctea. A pesquisa astroquímica continua a investigar a presença e a abundância de várias moléculas orgânicas em diferentes regiões da nossa galáxia, fornecendo informações valiosas sobre os processos químicos que podem estar relacionados à formação da vida.

Modificado de ChatGPT em diálogo com Ramon Lamar de Oliveira Junior

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Telescópio James Webb faz primeira detecção de “molécula da vida”.

Link para matéria completa: https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/telescopio-james-webb-faz-primeira-deteccao-de-molecula-da-vida-veja-imagens/#:~:text=vida%E2%80%9C%3B%20veja%20imagens-,Telesc%C3%B3pio%20James%20Webb%20faz%20primeira%20detec%C3%A7%C3%A3o,mol%C3%A9cula%20da%20vida%E2%80%9D%3B%20veja%20imagens&text=Uma%20equipe%20de%20cientistas%20internacionais,no%20espa%C3%A7o%20pela%20primeira%20vez.

Resumo: Uma equipe de cientistas internacionais usou o Telescópio Espacial James Webb da Nasa para detectar um novo composto de carbono no espaço pela primeira vez.

Conhecida como cátion metil (CH₃⁺), a molécula é importante porque auxilia na formação de moléculas mais complexas baseadas em carbono. O cátion metil foi detectado em um sistema estelar jovem, com um disco protoplanetário, conhecido como d203-506, localizado a cerca de 1.350 anos-luz de distância na Nebulosa de Orion.

Os compostos de carbono formam as bases de toda a vida conhecida e, como tal, são particularmente interessantes para os cientistas que trabalham para entender como a vida se desenvolveu na Terra e como ela poderia se desenvolver em outras partes do nosso universo. O estudo da química interestelar orgânica (contendo carbono), que Webb está abrindo de novas maneiras, é uma área de grande fascínio para muitos astrônomos.

As capacidades únicas do Webb o tornaram um observatório ideal para procurar por essa molécula crucial. A excelente resolução espacial e espectral de Webb, bem como sua sensibilidade, contribuíram para o sucesso da equipe. Em particular, a detecção de Webb de uma série de linhas de emissão chave do CH₃⁺ cimentou a descoberta.

“Essa detecção não apenas valida a incrível sensibilidade do Webb, mas também confirma a postulada importância central do CH₃⁺ na química interestelar”, disse Marie-Aline Martin-Drumel, da Universidade de Paris-Saclay, na França, membro da equipe científica.

Enquanto a estrela em d203-506 é uma pequena anã vermelha, o sistema é bombardeado por forte luz ultravioleta (UV) de estrelas quentes, jovens e massivas próximas. Os cientistas acreditam que a maioria dos discos de formação de planetas passa por um período de intensa radiação UV, uma vez que as estrelas tendem a se formar em grupos que geralmente incluem estrelas massivas produtoras de UV. Normalmente, espera-se que a radiação UV destrua moléculas orgânicas complexas, caso em que a descoberta de CH₃⁺ pode parecer uma surpresa.

No entanto, a equipe prevê que a radiação UV pode realmente fornecer a fonte de energia necessária para a formação do CH₃⁺ em primeiro lugar. Uma vez formado, promove reações químicas adicionais para construir moléculas de carbono mais complexas.

Em termos gerais, a equipe observa que as moléculas que eles veem em d203-506 são bem diferentes dos discos protoplanetários típicos. Em particular, eles não conseguiram detectar nenhum sinal de água. “Isso mostra claramente que a radiação ultravioleta pode mudar completamente a química de um disco protoplanetário. Na verdade, pode desempenhar um papel crítico nos primeiros estágios químicos das origens da vida”, elaborou Olivier Berné, do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica em Toulouse, principal autor do estudo.

Essas descobertas, que são do programa PDRs4ALL Early Release Science, foram publicadas na revista Nature.

O Telescópio Espacial James Webb é o principal observatório de ciência espacial do mundo. Webb resolverá mistérios em nosso sistema solar, olhará além para mundos distantes ao redor de outras estrelas e investigará as misteriosas estruturas e origens de nosso universo e nosso lugar nele. O Webb é um programa internacional liderado pela Nasa com seus parceiros, a ESA (Agência Espacial Europeia) e a Agência Espacial Canadense.


Observação: O grupo metil (CH₃⁺) não é um grupo complexo. Na verdade é um dos grupos mais simples da química orgânica. Claro que qualquer descoberta de moléculas orgânicas ou radicais livres que possam colaborar para a dinâmica de reações na formação de moléculas mais complexas é importante, longe de mim querer desmerecer a descoberta. Quando vi o título pensei em moléculas intermediárias do metabolismo vital como um aminoácido mais complexo do que a glicina ou um par de bases nitrogenadas. E achei graça de no texto publicado haver uma chave de pronúncia em inglês para cátion, como se esse não fosse um termo conhecido desde o primeiro ano do ensino médio. Veja print abaixo:


Agradeço muito a divulgação científica que as grandes redes noticiosas tentam fazer. Mas acho que não podem se limitar a simples traduções de textos. Em verdadeira defesa da ciência, deveriam ter alguns colaboradores, de diversas áreas, para verificar melhor essas traduções e, às vezes, acrescentar algum grau de interpretação. Lugar de cientista também é na imprensa!

Ramon Lamar de Oliveira Junior

terça-feira, 27 de junho de 2023

Das rochas ao mercado de baterias: conheça todo o potencial do lítio brasileiro!

Link para matéria completa: https://g1.globo.com/especial-publicitario/vale-do-litio-em-mg/noticia/2023/06/26/das-rochas-ao-mercado-de-baterias-conheca-todo-o-potencial-do-litio-brasileiro.ghtml

Resumo: Com a maior reserva comprovada do mineral no Brasil, Minas Gerais está à frente de uma revolução na extração e comercialização de um dos metais mais valorizados do mundo.

Um metal de coloração branco-prateada, denominado lítio, é responsável por muitas facilidades do nosso dia a dia, como o funcionamento de um notebook, um smartphone, uma câmera fotográfica e, até mesmo, de um veículo elétrico.

Mas, antes de virar um componente de uma bateria – que liga, por exemplo, nossos dispositivos portáteis – o lítio é o responsável por provocar uma revolução: está impulsionando localidades do Norte e Nordeste de Minas Gerais e inserindo o estado no mapa internacional da cadeia do metal altamente especializado, usado por setores como tecnologia da informação, automotivo e de energias renováveis.

Uma nova realidade para região

É no Vale do Jequitinhonha e na região Norte do estado que se encontra a maior reserva comprovada de lítio do Brasil, de acordo com a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM).

Com essa descoberta e a chegada de empresas para a extração do mineral e comercialização para todo o mundo, os municípios de Araçuaí, Capelinha, Coronel Murta, Itaobim, Itinga, Malacacheta, Medina, Minas Novas, Pedra Azul, Rubelita, Salinas, Teófilo Otoni, Turmalina e Virgem da Lapa, vivem uma nova fase e podem virar um vale da tecnologia com foco na produção de baterias.

Coordenado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede) do Governo de Minas Gerais, o projeto econômico-social Vale do Lítio (Lithium Valley Brazil) prevê uma transformação da realidade local, levando toda cadeia produtiva do lítio para essas regiões.

Além da extração, graças aos cerca de 45 depósitos, segundo estudos realizados pelo Serviço Geológico do Brasil, o projeto construído por meio da Agência de Promoção de Investimento e Comércio Exterior de Minas Gerais (Invest Minas) viabiliza a instalação de empresas para fabricar as baterias que vão abastecer mercados em todo o mundo.


Utilizado em diversas aplicações, de medicamento para estabilizar o humor até a composição de baterias de longa duração, o lítio também tem papel fundamental na transição energética, porque proporciona boa parte do armazenamento da energia nas baterias dos carros elétricos, essenciais para um futuro sustentável da indústria automobilística – que caminha para a substituição dos veículos movidos por combustíveis fósseis.

Benefícios da cadeia mineira do lítio

Para entender melhor todo o potencial do lítio brasileiro e seus diferenciais, listamos abaixo alguns benefícios da produção no Vale do Jequitinhonha e na região Norte de Minas Gerais. Confira:

● O lítio encontrado lá é de alta pureza, com grande potencial no mercado de baterias mais potentes.

● Tem muito valor. Em seu estado bruto, o metal é cotado em até US$ 70 a tonelada, podendo chegar a até US$ 6 mil a tonelada quando processado.

● É mais sustentável, extraído da rocha com uso de menos água que o modelo tradicional e com baixa emissão de CO2.

● Utiliza fonte de energia hidroelétrica da região, gerando menos custos e o consumo de energia limpa em toda produção.

● A região está localizada em rotas de escoamento, com proximidade a aeroportos e portos.

● Conta com a infraestrutura das cidades do entorno e com o conhecimento dos campi universitários.

● A existência de 45 jazidas, com grande potencial econômico, pode aumentar em 20 vezes as reservas comprovadas do mineral na região, garantindo o fornecimento da matéria-prima por um longo prazo.

● A consolidação do Vale do Lítio aumenta a geração de empregos, o PIB local e transforma, direta ou indiretamente, o panorama socioeconômico de mais de 980 mil habitantes em 55 municípios.

A partir de um decreto federal de julho de 2022, os investimentos para extração do lítio no Vale do Jequitinhonha e na região Norte do estado foram facilitados e o comércio exterior de minerais e minérios de lítio e de seus derivados ganharam força.

Já há três companhias atuando na região e, até o fim de 2023, o governo estadual prevê que novos projetos de investimento serão formalizados com empresas estrangeiras.

Observação: Matéria feita pelo Governo de Minas Gerais

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Pinguim-de-magalhães desidratado e com ferimentos é resgatado em praia no litoral de SP

Link para texto completo: https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2023/06/26/pinguim-de-magalhaes-desidratado-e-com-ferimentos-e-resgatado-em-praia-no-litoral-de-sp.ghtml

Resumo: Um pinguim-de-magalhães (Spheniscus magellanicus) foi resgatado na faixa de areia em Praia Grande, no litoral de São Paulo. Segundo apurado, o pinguim estava com ferimentos na cabeça e em uma das patas. Ele foi encaminhado para tratamento no Instituto Gremar.

Instituto Biopesca, responsável pelo monitoramento de praias na região, disse que foi acionado por banhistas que passavam pelo local, no último sábado (24/06/23). A ave foi carregada pelas ondas e, por conta dos machucados, não conseguiu nadar.

Após o resgate, o animal foi levado para o Instituto Gremar. A ave está no Centro de Reabilitação e Despetrolização de Animais Marinhos, em Guarujá, onde passou por atendimento veterinário.

Segundo o Instituto Gremar, a equipe constatou que o animal estava magro, desidratado e com hipoglicemia. Além disso, apresentava uma ferida na região da pata e uma profunda na região da cabeça, que foi higienizada e realizada sutura. O animal está sendo mantido em ambiente controlado e recebendo tratamento veterinário e já apresenta evolução clínica.

De acordo com o Instituto Gremar, os pinguins-de-magalhães são uma espécie migratória e extremamente social, portanto para que haja uma soltura de sucesso é essencial que os animais sejam reintegrados à natureza em grupos pois com um maior número de indivíduos saudáveis, maior a chance de sobrevivência do bando e que eles obtenham sucesso neste processo de migração.

O Instituto ressaltou que, durante o inverno do hemisfério sul, os pinguins-de-magalhães migram de suas colônias reprodutivas no sul da Argentina, Patagônia, Chile e Ilhas Malvinas até o litoral brasileiro, em busca de alimento.

domingo, 25 de junho de 2023

Cientistas criam embrião humano 'sintético' sem usar espermatozoide nem óvulo

Link para matéria completa: https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2023/06/cientistas-criam-embriao-humano-sintetico-sem-usar-espermatozoide-nem-ovulo.shtml?

Resumo: Em uma semana movimentada no universo da genética, pelo menos três times diferentes de cientistas anunciaram o desenvolvimento de modelos de embriões humanos "sintéticos" em laboratório. O material foi cultivado por meio da reprogramação de células-troncos, sem a necessidade de utilização de óvulos ou espermatozoides.

Dois grupos afirmam ter conseguido avançar com o crescimento até o que seria equivalente aos 14 dias de um embrião natural, enquanto um terceiro atingiu estágios semelhantes aos vistos na quarta semana pós-fecundação.

A principal aplicação para esse tipo de pesquisa é o estudo e compreensão de doenças e outras condições durante os estágios iniciais do desenvolvimento embrionário. Problemas genéticos ou mesmo abortos espontâneos de repetição poderiam ser investigados com recurso a esse método.

Embora os cientistas enfatizem que o material criado agora em laboratório não poderia ser utilizado para gerar uma vida, as descobertas já provocam controvérsia quanto aos aspectos éticos desse tipo de trabalho.

Até agora, porém, os detalhes sobre o andamento dos trabalhos estão limitados às informações fornecidas pelos próprios autores da pesquisa. As experiências ainda não foram publicadas em revistas científicas nem passaram pela revisão por pares, uma etapa essencial para a verificação das informações e checagem de eventuais inconsistências.

O primeiro anúncio a ganhar atenção mundial foi do grupo liderado pela professora Magdalena Żernicka-Goetz, vinculada à Universidade de Cambridge (Reino Unido) e ao Instituto de Tecnologia da Califórnia (EUA), durante a reunião anual da Sociedade Internacional para a Pesquisa em Células-Tronco, realizada na semana passada em Boston, nos Estados Unidos.

As estruturas do modelo foram criadas a partir de células-tronco embrionárias, que atingiram o princípio da chamada fase de gastrulação, quando começa a diferenciação das células para a formação das diferentes linhagens que formam o corpo humano.

Neste ponto de desenvolvimento, o embrião ainda não tem órgãos ou batimentos cardíacos, mas, de acordo com a pesquisadora, o modelo já tinha a presença de células precursoras de óvulo e espermatozoide.

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Żernicka-Goetz disse que o feito é inédito. "É lindo e criado inteiramente a partir de células-tronco embrionárias."

No dia seguinte à palestra, a pesquisadora divulgou uma versão de pré-publicação do trabalho em uma plataforma especializada.

Na mesma data, o principal "rival" acadêmico do grupo na corrida pelo desenvolvimento embrionário, um time liderado por Jacob Hanna, do Instituto de Ciência Weizmann, de Israel, também apresentou um artigo de pré-publicação afirmando ter atingido resultados semelhantes. O trabalho dos israelenses utilizou métodos similares aos descritos pelo time liderado por Żernicka-Goetz.

Em artigos anteriores, ambos os grupos já haviam utilizado técnicas semelhantes para estimular células-troncos de camundongos para a formação de estruturas similares a embriões, inclusive com batimentos cardíacos.

Ainda durante a reunião anual da Sociedade Internacional para a Pesquisa em Células-Tronco, um terceiro grupo, comandado por Jitesh Neupane, do Instituto Gurdon da Universidade de Cambridge, afirmou que conseguiu ir além dos demais pesquisadores, criando um modelo de embrião humano replicando parte do estágio da terceira ou quarta semana de gestação.

O material foi cultivado a partir de células-tronco embrionárias e, posteriormente, transferido para um recipiente rotativo que serviu como uma espécie de útero artificial.

As estruturas foram deliberadamente alteradas para não terem os tecidos que compõem o saco vitelino e a placenta dos embriões naturais, o que de início já inviabiliza seu desenvolvimento até um feto. Ainda assim, a descrição apresentada por Neupane indica que o grupo conseguiu chegar ao ponto de identificar batimentos cardíacos e traços de sangue vermelho.

"Gostaria de enfatizar que não são embriões nem estamos tentando fazer embriões, na verdade", disse Jitesh Neupane, citado pelo Guardian. "São apenas modelos que podem ser usados para analisar aspectos específicos do desenvolvimento humano."

Como a pesquisa com embriões humanos acima de 14 dias de desenvolvimento é vetada na maioria dos países —inclusive no Brasil—, os trabalhos têm gerado críticas sobre o cumprimento das regulações.

"Para mim, a grande novidade desses estudos é que eles conseguiram cultivar as células em laboratório por muito mais tempo sem útero", avalia a diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP, Mayana Zatz.

A geneticista destacou também o que considera alguns pontos fracos das pesquisas, enfatizando as limitações para qualquer avaliação, uma vez que os trabalhos ainda não foram publicados em revistas científicas.

A especialista critica a própria decisão de afirmar que se trata de modelos de embriões sintéticos. "É problemático falar que são sintéticos, porque são cultivados a partir de células-tronco embrionárias", enfatizou Zatz. Especialistas de vários países têm feito ressalvas similares.

"Você tem uma primeira célula que se forma através da união do óvulo com o espermatozoide. Essa célula começa a se dividir e, até um estágio de 8 a 16 células, elas são chamadas de células-tronco embrionárias. Pelo que eu entendi, eles pegaram uma dessas células embrionárias e cultivaram em laboratório. Logo isso começou de algo que já foi fecundado, bem no início da embriogênese", afirmou.

Giuliana Miranda

sábado, 24 de junho de 2023

ChatGPT responde: O que é a técnica CAR-T

A técnica CAR-T (Chimeric Antigen Receptor T-cell Therapy, em inglês) é uma forma inovadora de terapia celular usada no tratamento de certos tipos de câncer, principalmente câncer de sangue, como leucemia e linfoma. É uma forma de imunoterapia que utiliza as células do sistema imunológico do próprio paciente para combater as células cancerígenas.

O processo começa com a coleta de células T (linfócitos T) do paciente por meio de uma aférese, um processo semelhante à doação de sangue. Essas células T são então geneticamente modificadas em laboratório para expressar um receptor quimérico de antígeno (CAR). O CAR é projetado para reconhecer e se ligar a um antígeno específico encontrado nas células cancerígenas.

Uma vez que as células T são modificadas para expressar o CAR, elas são cultivadas em grande quantidade em laboratório e, em seguida, reintroduzidas no paciente por meio de uma infusão intravenosa. Essas células T modificadas são capazes de reconhecer e se ligar às células cancerígenas que expressam o antígeno alvo, ativando o sistema imunológico para atacar e destruir as células cancerígenas.

A terapia com CAR-T tem mostrado resultados promissores no tratamento de certos tipos de câncer refratários ou recidivantes, ou seja, cânceres que não respondem a outros tratamentos convencionais. No entanto, é um tratamento complexo e ainda em desenvolvimento, e pode estar associado a efeitos colaterais significativos, como a síndrome da liberação de citocinas e a neurotoxicidade.

É importante ressaltar que a técnica CAR-T é altamente personalizada e específica para cada paciente, uma vez que as células T utilizadas são derivadas do próprio sistema imunológico do indivíduo. Portanto, seu uso ainda é limitado a centros médicos especializados e está sujeito a critérios de seleção rigorosos.

"O que é a técnica CAR-T?" ChatGPT, 24 de junho de 2023, https://www.openai.com
(Texto revisto por Ramon Lamar de Oliveira Junior)


quinta-feira, 15 de junho de 2023

Cientistas criam primeiro embrião humano sintético usando células-tronco

Link para matéria completa: https://canaltech.com.br/ciencia/cientistas-criam-1o-embriao-humano-sintetico-usando-celulas-tronco-252872/

Resumo: Em um extraordinário avanço científico, pesquisadores conseguiram criar embriões humanos sintéticos utilizando células-tronco, dispensando o uso de óvulos ou espermatozoides. Lembrando os embriões nos primeiros estágios de desenvolvimento natural, estas versões artificiais poderão permitir estudos inéditos acerca de distúrbios genéticos e causas biológicas de aborto espontâneo recorrente, por exemplo. Alguns cientistas citam planos de usar os embriões sintéticos para doação de órgãos.

O trabalho, realizado por cientistas da Universidade de Cambridge e do Instituto de Tecnologia da Califórnia, também acaba levantando questões éticas e legais, já que as entidades laboratoriais ficam de fora da legislação atual da maioria dos países, como o Reino Unido, onde a pesquisa foi realizada. As estruturas não possuem um coração pulsante ou sequer o início de um cérebro, mas há, nelas, células que normalmente formarão a placenta, como o saco vitelino e o próprio embrião.

Em uma conferência na última quarta-feira (14/6/2023), a pesquisadora Magdalena Żernicka-Goetz descreveu como o trabalho foi feito. Não há, ainda, previsão de uso clínico para os embriões sintéticos, e seria ilegal implantá-los no útero de qualquer paciente. Os cientistas também não sabem se as estruturas têm o potencial de continuar amadurecendo para além dos primeiros estágios de desenvolvimento embrionário.

Uma das motivações dos cientistas é estudar o período conhecido como “caixa preta” do desenvolvimento humano, chamado assim por ser permitido o cultivo de embriões em laboratório pelo limite de 14 dias. Os próximos estágios possíveis são estudados apenas em imagens de tomografia e ressonância em grávidas e embriões doados para pesquisa, muito mais à frente no desenvolvimento.

Modelar esse desenvolvimento com células-tronco poderia permitir estudar esse período crítico do nosso crescimento, sem usar embriões “reais” na pesquisa.

Em investigações anteriores, tanto a equipe de Żernicka-Goetz quanto outra rival, no Instituto Weizmann, em Israel, conseguiram fazer células-tronco de camundongos se reorganizar para criar estruturas semelhantes a embriões, chegando até a desenvolver trato intestinal, o início de um cérebro e de um coração pulsante. Isso desencadeou uma corrida para repetir o feito com células humanas, o que se mostrou ser possível na mais recente pesquisa.

 (Imagem: Jacob Hanna/ Weizmann Institute of Science)

Pesquisas com embriões de camundongos, como o aqui representado, foram pioneiras no desenvolvimento de embriões sintéticos a partir de células-tronco: a ciência tem avançado mais rápido do que a legislação, nesse caso. 

Um estudo detalhando a novidade ainda está para ser publicado, mas os cientistas já descreveram ter cultivado os embriões para um estágio pouco além do equivalente a 14 dias de desenvolvimento para um embrião natural.

Cada modelo estrutural, criado a partir de uma célula-tronco embrionária única, chegou ao início de um marco chamado de gastrulação, quando o embrião passa de uma folha de células para a formação de linhas celulares distintas, formando os eixos básicos do corpo. Embora os órgãos não tenham iniciado o desenvolvimento nesse estágio, já podem ser vistas células primordiais, as precursoras dos óvulos e espermatozoides.

Questões legais

O trabalho deixa claro que a ciência tem corrido, ao menos neste campo, mais rápido que a legislação. Cientistas de todo o mundo já buscam traçar orientações voluntárias para governar o trabalho sobre os embriões sintéticos — se a intenção é, afinal de contas, criar modelos iguais aos de embriões normais, então eles deveriam ser tratados de maneira semelhante, segundo especialistas. Na legislação atual, eles não são, e isso gera preocupações.

A legislação ainda é confusa quando falamos sobre embriões sintéticos — se eles são como os naturais, porque não tratá-los assim perante a lei?

Um dos principais questionamentos — e que ainda não tem resposta — é se as estruturas poderiam, teoricamente, se tornar um ser vivo. Os embriões de camundongo, por exemplo, apesar de ser quase idênticos a embriões naturais, não se tornaram seres vivos ao serem implantados em úteros de fêmeas.

Em abril, pesquisadores implantaram embriões sintéticos de símios no útero de fêmeas adultas, na China, mostrando os primeiros sinais de gravidez, mas não passando dos primeiros dias. Não sabemos, ainda, se a barreira para o desenvolvimento é técnica ou biológica. Esse desconhecimento, segundo os cientistas, coloca mais pressão ainda para legislação restrita em pesquisas como essas.

sábado, 10 de junho de 2023

Cientistas criam moléculas artificiais que se comportam como as reais

Link para matéria completa: https://canaltech.com.br/saude/cientistas-criam-moleculas-artificiais-que-se-comportam-como-reais-252378/

Resumo: Em estudo publicado na revista Science Daily na última quinta-feira (8/6/2023), cientistas desenvolveram moléculas artificiais que se comportam como as moléculas orgânicas reais. Conforme os próprios autores do artigo ressaltam, a descoberta tem potencial para desencadear impactos positivos em todos os campos científicos.

Os cientistas contam que o projeto começou quando surgiu a ideia maluca de construir um simulador quântico. Para criar moléculas artificiais que se assemelhassem a moléculas reais, o grupo desenvolveu um sistema para capturar elétrons: "Os elétrons cercam uma molécula como uma nuvem, e usamos esses elétrons aprisionados para construir uma molécula artificial", diz o estudo.

Segundo os pesquisadores, a dificuldade está em entender como certas as moléculas reagem e como mudam. "Queríamos simular moléculas, para que pudéssemos ter os recursos necessários para dobrá-las e ajustá-las de maneiras quase impossíveis com moléculas reais. Dessa forma, podemos dizer algo sobre moléculas reais sem ter que lidar com os desafios que elas apresentam", justificam os pesquisadores.

Através desse simulador, os pesquisadores criaram uma versão artificial de uma das moléculas orgânicas básicas da química: o benzeno. Trata-se do componente inicial de uma grande quantidade de produtos químicos.

Ao usar o simulador, os cientistas podem entender muito melhor as moléculas e suas reações. "Ao fazer uma versão simulada, podemos procurar novas propriedades e funcionalidades de certas moléculas e avaliar se valerá a pena fazer o material real”, explicam.

Em um futuro distante, a expectativa é que a técnica ajude a entender reações químicas passo a passo, ou fazer dispositivos eletrônicos artificiais de uma única molécula. De qualquer maneira, os próprios autores reconhecem que é um longo caminho a percorrer. "Agora podemos começar a entender as moléculas de uma forma que nunca fizemos antes", concluem.

O que é uma molécula?

Uma molécula é uma substância composta por átomos unidos entre si por meio de ligações químicas. Trata-se da estrutura fundamental formada pela combinação de dois ou mais átomos — que, por sua vez, representam a menor unidade fundamental de um elemento químico que mantém as propriedades desse elemento. É a partícula básica que compõe toda a matéria.

Em estudos anteriores, cientistas descobriram uma molécula que combate mais de 300 tipos de bactérias resistentes. A molécula em questão se chama fabimicina, e ela supera as barreiras ao passar pela camada externa da célula e ainda consegue evitar a eliminação de muitas bactérias saudáveis.

Em março, pela primeira vez, cientistas conseguiram formar moléculas sem aplicar energia, apenas contando com as propriedades estranhas da mecânica quântica.

terça-feira, 30 de maio de 2023

Paciente com câncer há 13 anos tem remissão completa em SP em um mês após terapia celular em estudo na rede pública

Link para matéria completa: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2023/05/29/paciente-com-cancer-ha-13-anos-tem-remissao-completa-em-sp-em-um-mes-apos-terapia-celular-em-estudo-na-rede-publica.ghtml

Resumo: Terapia combate a doença com células de defesa do paciente modificadas em laboratório e é estudada para três tipos de cânceres: leucemia linfoblástica B, linfoma não Hodgkin de células B e mieloma múltiplo.

Um protocolo adotado pela Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Instituto Butantan e o Hemocentro de Ribeirão Preto, está trazendo para a rede pública de saúde uma técnica considerada revolucionária no combate ao câncer, utilizada em poucos países.

Até agora, 14 pacientes foram tratados com o CAR-T Cell com verbas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Todos os pacientes tratados tiveram remissão de ao menos 60% dos tumores. A recuperação foi no Sistema Único de Saúde (SUS).

Um deles é Paulo Peregrino, de 61 anos, que lutava contra o câncer havia 13 anos e estava prestes a receber cuidados paliativos quando foi submetido ao tratamento em abril e, em apenas um mês, teve remissão completa do seu linfoma.

No segundo semestre, 75 pacientes devem ser tratados com o CAR-T Cell com verba pública após autorização da Anvisa para o estudo clínico. Atualmente, o tratamento só existe na rede privada brasileira, ao custo de ao menos R$ 2 milhões por pessoa.

O método tem como alvo três tipos de cânceres: leucemia linfoblástica B, linfoma não Hodgkin de células B e mieloma múltiplo, que atinge a medula óssea. O tratamento contra mieloma múltiplo ainda não está disponível no país. 

"Devido ao alto custo, este tratamento não é acessível em grande parte dos países do mundo. O Brasil, por outro lado, encontra-se em uma posição privilegiada e tem a rara oportunidade de introduzir este tratamento no SUS em curto período de tempo", diz Dimas Covas, coordenador do Centro de Terapia Celular CEPID-USP e do Núcleo de Terapia Celular do Hemocentro de Ribeirão Preto, que desenvolveu a versão brasileira dessa tecnologia.

Remissão completa em curto período

Paulo é o caso mais recente de remissão completa em curto período de tempo do grupo de estudos com os 14 pacientes do Centro de Terapia Celular.

Ele teve alta no domingo (28) depois de ficar sob cuidados médicos no Hospital das Clínicas da cidade de São Paulo.

Vanderson Rocha, professor de hematologia, hemoterapia e terapia celular da Faculdade de Medicina da USP e coordenador nacional de terapia celular da rede D’Or, está à frente do caso de Paulo.

“Foi uma resposta muito rápida e com tanto tumor. Fico até emocionado [ao ver as duas ressonâncias de Paulo]. Fiquei muito surpreso de ver a resposta, porque a gente tem que esperar pelo menos um mês depois da infusão da célula. Quando a gente viu, todo mundo vibrou. Coloquei no grupo de professores titulares da USP e todo mundo impressionado de ver a resposta que ele teve”, comemorou o especialista.

Entre os outros 13 pacientes tratados como Paulo, 69% tiveram remissão completa em 30 dias. O primeiro paciente tratado com a técnica na rede pública do Brasil teve resultados parecidos com os de Paulo, mas morreu por um acidente doméstico em casa.


sábado, 13 de maio de 2023

Cientistas revelam versão renovada e mais diversificada do genoma humano

Link para matéria completa: https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2023/05/cientistas-revelam-versao-renovada-e-mais-diversificada-do-genoma-humano.shtml

Resumo: 'Pangenoma' coleta sequências genéticas de 47 pessoas de diferentes origens étnicas e pode expandir alcance da medicina personalizada

Mais de 20 anos depois que cientistas divulgaram pela primeira vez um esboço de sequência do genoma humano, o livro da vida passa por uma revisão há muito necessária.

Uma edição mais precisa e inclusiva do nosso código genético (sic) foi publicada nesta quarta-feira (10), marcando um passo importante na direção de uma compreensão mais profunda da biologia humana e da medicina personalizada para pessoas de uma ampla variedade de origens raciais e étnicas.


Diferentemente da referência anterior —que foi amplamente baseada no DNA de um homem mestiço de Buffalo, em Nova York, com contribuições de algumas dezenas de outros indivíduos, principalmente descendentes de europeus–, o novo "pangenoma" incorpora sequências genéticas quase completas de 47 homens e mulheres de diversas origens, incluindo afro-americanos, caribenhos, sul-americanos, pessoas do leste da Ásia e do oeste da África. 

O mapa do genoma renovado representa uma ferramenta crucial para cientistas e médicos que desejem identificar variações genéticas associadas a doenças. Ele também promete oferecer tratamentos que podem beneficiar todas as pessoas, independentemente de sua raça, etnia ou ascendência, disseram os pesquisadores.

"Isto era necessário há muito tempo –e eles fizeram um trabalho muito bom", disse Ewan Birney, geneticista e vice-diretor geral do Laboratório Europeu de Biologia Molecular, que não participou do esforço. "Ele vai melhorar nossa compreensão refinada das variações, e essa pesquisa abrirá novas oportunidades para aplicações clínicas."

Alimentado pela mais recente tecnologia de sequenciamento de DNA, o pangenoma agrupa todos os 47 genomas únicos em um único recurso, fornecendo a imagem mais detalhada do código que movimenta nossas células. As lacunas na referência anterior estão agora preenchidas, com quase 120 milhões de letras de DNA antes perdidas adicionadas ao código de 3 bilhões de letras.

Foi-se a ideia de um fio totêmico de DNA que se estende por 1,80 metro quando desenrolado e esticado em linha reta. A referência renovada se assemelha a um labirinto num milharal, com caminhos alternativos e trilhas laterais que permitem aos cientistas explorar uma gama mais ampla da diversidade genética encontrada em pessoas de todo o mundo.

O doutor Eric Green, diretor do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano, a agência governamental que financiou o trabalho, compara o pangenoma a um novo tipo de manual para oficinas mecânicas. Enquanto antes cada mecânico só tinha as especificações de um tipo de carro, agora existe um plano mestre que abrange diferentes marcas e modelos.

"Passamos de ter um projeto realmente bom do Chevy para agora termos projetos de 47 carros representativos de 47 fabricantes diferentes", disse ele.

No devido tempo, disseram os especialistas, o pangenoma revolucionará o campo da medicina genômica.

"Teremos o benefício de realmente nos entendermos muito melhor como espécie", disse Evan Eichler, cientista do genoma da Universidade de Washington. Eichler estava entre os mais de cem cientistas e bioeticistas que descreveram a nova referência do pangenoma na revista Nature.

Os arquitetos do projeto continuam a adicionar grupos populacionais, com o objetivo de incluir pelo menos 350 genomas de alta qualidade que abranjam a maior parte da diversidade humana global.

"Queremos representar todos os ramos da árvore humana", disse Ira Hall, geneticista que lidera o Centro de Saúde Genômica de Yale.

Alguns dos novos genomas virão de nova-iorquinos que participaram anteriormente de um programa de pesquisa na rede hospitalar Mount Sinai. Se seus dados preliminares de DNA parecerem refletir certos antecedentes genéticos sub-representados, esses indivíduos serão convidados a participar do projeto pangenoma.

Algumas lacunas talvez nunca sejam preenchidas na referência disponível –conforme previsto no projeto.

Tentativas anteriores de captar a diversidade genética humana frequentemente extraíam dados de sequências de populações marginalizadas, sem levar em consideração suas necessidades e preferências. Informados por esses erros éticos, os coordenadores do pangenoma agora estão colaborando com grupos indígenas para desenvolver políticas formais de propriedade dos dados.

"Ainda estamos lidando com a questão da soberania nativa e tribal", disse Barbara Koenig, bioética da Universidade da Califórnia em San Francisco, que participou do projeto.

ATENÇÃO: Contém o erro clássico de chamar a "informação genética" de "código genético". O código genético, como sabemos, é a relação entre códons e aminoácidos e é praticamente imutável em todos os seres vivos.

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Bebê com DNA de três pessoas nasce no Reino Unido, diz jornal

Link para matéria completa: https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2023/05/bebe-com-dna-de-tres-pessoas-nasce-no-reino-unido-diz-jornal.shtml

Resumo: Procedimento de doação mitocondrial já havia sido usado no México, de acordo com o The Guardian.

Um bebê com DNA de três pessoas nasceu no Reino Unido a partir do uso de uma técnica conhecida como doação mitocondrial, segundo o jornal britânico The Guardian.

O procedimento usa o tecido de óvulos de pessoas saudáveis para criar embriões livres de mutações genéticas e evita que o bebê herde doenças incuráveis, como a síndrome de Leigh, que causa problemas no desenvolvimento e morte durante a infância.

A técnica combina o tecido das mitocôndrias do óvulo da doadora com o material genético do espermatozoide e do óvulo dos pais biológicos. Assim, o bebê que nasceu tem material genético de três pessoas —apenas cerca de 37 genes vêm do tecido mitocondrial, ou 0,2% dos seus 20 mil genes.

O esperma do pai é usado para fertilizar os óvulos da mãe e da doadora. O material genético da doadora é removido e substituído pelo do óvulo do casal, com o DNA dos pais e as mitocôndrias saudáveis da doadora.

A técnica foi usada com sucesso pela primeira vez em 2016, no México, quando um médico norte-americano anunciou o nascimento de um bebê de uma mulher da Jordânia que havia sofrido quatro abortos e a perda de dois filhos —um com seis anos e outro com oito meses.

A pesquisa sobre o tema no Reino Unido tentava ajudar mulheres com mutações mitocondriais, que causam doenças incuráveis, a terem filhos saudáveis.

As mitocôndrias são organelas celulares, componentes responsáveis pela energia das células que compõem nossos tecidos. Mutações nessas "usinas" podem afetar o cérebro, o coração, os músculos e o fígado, que se deterioram enquanto a criança cresce.

O parlamento britânico permitiu os procedimentos em 2015. Dois anos depois, o Centro de Fertilidade de Newcastle se tornou o primeiro e único centro nacional habilitado para fazer o tratamento, conhecido pela sigla MDT (tratamento de doação mitocondrial, em tradução livre).

Cada procedimento de aplicação nos embriões precisa ser aprovado pela HFEA, autoridade britânica de saúde, fertilização e embriologia, que já permitiu 30 deles até agora. A agência disse ao The Guardian que "menos de cinco" bebês nasceram por meio deste procedimento até abril, mas não informou ao jornal quantos nasceram além do caso confirmado.

A pesquisa, contudo, também apontou riscos, como um número de mitocôndrias anormais que inevitavelmente são carregadas do óvulo da mãe para o da doadora e se replicam quando o feto está no útero.

sexta-feira, 31 de março de 2023

Gripe aviária: vírus H5N1 preocupa cientistas e pode causar nova pandemia


Resumo: Nas últimas semanas, o influenza H5N1, vírus causador da gripe aviária, voltou a figurar nas manchetes de todo o mundo.
Das cidades litorâneas do Daguestão, na Rússia, à costa do Peru, passando por fazendas de visons na Espanha e granjas nos Estados Unidos, foram vários os episódios registrados de milhões de animais que morreram (ou foram sacrificados) após terem contato com esse agente infeccioso.
Embora o risco ainda seja considerado pequeno, agências de saúde e pesquisadores do mundo inteiro aumentaram o nível de alerta sobre esse tipo de influenza e o potencial que ele possui de causar a próxima pandemia.
"Se o H5N1 ganhar a capacidade de ser transmitido de uma pessoa para outra, esse pode ser um dos problemas mais graves que a humanidade já enfrentou", diz o virologista Edison Luiz Durigon, professor titular do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).
A boa notícia é que, ao contrário do que ocorreu na COVID-19, os governos e serviços de saúde já têm planos definidos sobre o que fazer caso um avanço do H5N1 se torne realidade — algumas vacinas, inclusive, já estão prontas ou em desenvolvimento agora.
Mas, afinal, o que faz esse vírus ser tão preocupante assim? E por que ele voltou a ser assunto recentemente?

Um surto de grandes proporções
A Organização Mundial para Saúde Animal estima que, desde outubro de 2021, foram registrados mais de 42 milhões de casos de infecção por H5N1 em aves. Nesse período, cerca de 15 milhões de aves domésticas morreram em decorrência dessa gripe — e outras 193 milhões precisaram ser sacrificadas.
Trata-se, portanto, do pior surto de gripe aviária já registrado desde que esse vírus foi identificado pela primeira vez.
O H5N1 é conhecido desde 1996, quando foi detectado por cientistas na China e em Hong Kong.
Mas ele ganhou destaque internacional a partir de 2005, ano em que a mortalidade de frangos criados em granjas na Ásia subiu drasticamente. À época, também foram registrados episódios de infecção em seres humanos — todos os afetados tiveram contato direto com aves doentes.
Os surtos também estão se espalhando mundo afora: antes, eles se concentravam na Ásia e na Europa; mais recentemente, começaram a afetar as Américas — por ora, apenas Brasil e Paraguai não tiveram casos confirmados da infecção na América do Sul.
O aumento da circulação está relacionado às aves migratórias, que vão de um continente para o outro de acordo com a estação do ano. Muitas delas viajam infectadas e, quando chegam a um novo lugar, têm contato com as espécies locais.
A partir dessa proximidade, o vírus começa a circular numa nova região — e pode chegar às granjas, que concentram grandes quantidades de aves em armazéns fechados.
A médica veterinária Helena Lage Ferreira, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, explica que o influenza H5N1 passou por uma "diversificação genética".
"O subtipo que está causando o problema atual pertence ao clado 2.3.4.4b. Ele apresenta algumas mutações genéticas que tornaram o vírus mais transmissível entre as aves", aponta.
O "clado" citado pela especialista é um termo que se aproxima do significado de grupos ou variantes, que ficaram muito conhecidas por causa do coronavírus e suas linhagens, como a ômicron, a gama e a delta.
"O H5N1 é diferente de todos os outros. Nas aves, causa uma infecção grave, com sintomas respiratórios, como pneumonia, e até sinais neurológicos", descreve Ferreira, que também é professora da USP.

O 'pulo' para outras espécies
Além do altíssimo número de aves afetadas nos últimos dois anos, o que tem chamado a atenção dos cientistas mais recentemente é a quantidade de mamíferos que também estão se infectando com o H5N1.
Até o momento, casos de gripe relacionados a esse tipo de influenza foram confirmados em ursos, raposas, gambás, guaxinins, visons, focas, golfinhos e leões marinhos.
Na maioria desses casos, a infecção acontece pelo contato próximo das aves com esses mamíferos.
Muitos deles compartilham o mesmo habitat — o contato próximo facilita a transmissão do vírus entre espécies dessas duas classes de animais.
Ou seja: na maioria das vezes, o H5N1 é transmitido diretamente das aves para os mamíferos por meio de fluidos corporais (como gotículas de saliva ou fezes) ou pela predação, em que uma espécie caça e se alimenta da outra.
Recentemente, porém, dois episódios sinalizaram que o H5N1 pode estar adquirindo aos poucos a capacidade de se transmitir de um mamífero para o outro.
O primeiro deles aconteceu na Galícia, no noroeste da Espanha. Em outubro de 2022, os responsáveis por uma fazenda notificaram as autoridades sobre a transmissão desse influenza entre os visons (ou minks), um tipo de animal criado para a fabricação de casacos.
Essa foi a primeira ocasião em que a transmissão do H5N1 entre mamíferos (sem a intermediação de aves) foi confirmada oficialmente. Nenhum ser humano que teve contato com os visons ficou doente.
O segundo episódio ocorreu na costa do Peru, em que mais de 3,4 mil leões-marinhos morreram por causa da gripe aviária.
Esses óbitos na costa peruana ainda estão sob investigação para definir se a cadeia de transmissão envolveu diretamente as aves — ou o H5N1 também começou a ser transmitido entre os leões-marinhos.
Para a microbiologista Marilda Mendonça de Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC-FioCruz), todas essas observações são "preocupantes".
"Para infectar, os vírus precisam se adaptar às condições do hospedeiro", ensina.
"Além de conseguir se encaixar nos receptores das células das novas espécies, o influenza precisa se adequar às condições de temperatura e pH de cada organismo, que são diferentes em aves e mamíferos."
Em outras palavras, esse patógeno passou — e está passando — por uma série de transformações em seu material genético que podem facilitar o "pulo", ou a transmissão entre outras espécies, além daquelas em que ele já era frequentemente observado.
"E isso causa preocupação, pois as condições do organismo de seres humanos são bem mais próximas a de outros mamíferos do que das aves", complementa Siqueira.

O tamanho do perigo
De acordo com a OMS, entre 2003 e março de 2022 foram registrados 864 casos e 456 mortes causadas pelo H5N1 em seres humanos.
Já o CDC dos Estados Unidos estima que, entre janeiro de 2022 e março de 2023, dez pessoas foram diagnosticadas com a gripe aviária. Duas delas morreram.
Esses últimos casos aconteceram em Camboja, China, Espanha, Equador, Reino Unido, Estados Unidos e Vietnã.
Embora os números sejam pequenos, eles permitem calcular uma mortalidade bem alta: no cômputo geral, 52% das pessoas que foram infectadas pelo H5N1 morreram.
"Quando vemos esses casos mais recentes, ligados principalmente ao clado 2.3.4.4b, a mortalidade observada é menor, de 20%. Mesmo assim, é algo que preocupa", pondera Ferreira.
Para comparar, a atual taxa de mortalidade do Sars-CoV-2, o coronavírus que causa a covid-19, fica ao redor de 1%.
"Os vírus influenza costumam se replicar nas vias aéreas superiores e nos pulmões. Já o H5N1 parece ir além e atinge outros órgãos vitais, como o cérebro, o coração, o fígado, o baço e os rins", detalha Durigon.
"Os atestados de óbito para gripe comum costumam dizer que o indivíduo morreu de infecção pulmonar ou pneumonia. Já no H5N1, a causa de morte geralmente é descrita como 'falência múltipla de órgãos'", complementa o virologista.
Que fique claro: os casos de gripe aviária em seres humanos são esporádicos e estão todos relacionados ao contato próximo com animais infectados em granjas ou na natureza. Até o momento, não foi registrado nenhuma cadeia de transmissão direta desse influenza de uma pessoa para outra.
Para isso ocorrer, seria necessário que o H5N1 sofresse mutações — ou se recombinasse com outros tipos de influenza que afetam as pessoas ou as demais espécies (como aves e suínos).
Mas será que isso pode acontecer um dia?
"Eu diria que há uma incerteza, mas nunca estivemos tão próximos de um cenário desses. E uma pandemia de H5N1 seria uma tragédia", alerta Durigon.
"O H5N1 é um candidato a causador de uma futura pandemia. A pergunta aqui não é 'se' isso vai acontecer, mas, sim, 'quando'", afirma Siqueira.

O que fazer?
O médico britânico Jeremy Farrar, cientista-chefe da OMS, parece concordar com a visão dos especialistas brasileiros.
Numa entrevista recente, ele classificou o H5N1 como "uma grande preocupação" e sugeriu que mais atitudes devem ser tomadas para preparar o mundo para a próxima pandemia.
"Se um surto de H5N1 em humanos começar na Europa, no Oriente Médio, nos Estados Unidos ou no México amanhã, não seríamos capazes de vacinar todo mundo ainda em 2023", estimou.
Os pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil ponderam que, ao contrário do que aconteceu com a covid-19, as instituições internacionais e os governos estão mais preparados para lidar com eventual crise provocada pelo vírus influenza.
"A OMS tem planos de contingência para uma pandemia de influenza desde os anos 1950", lembra Siqueira.
Essa organização envolve redes de vigilância e análise laboratorial espalhados pelo mundo. O propósito aqui é detectar os vírus com rapidez, antes que ele se espalhe.
Um exemplo desses sistemas de monitoramento vem do próprio Brasil: o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação mantém a Rede Previr, que avalia a presença de patógenos em várias reservas naturais do país.
"A partir do ano passado, começamos a monitorar aves silvestres migratórias. Como o H5N1 chegou a outras partes da América do Sul, existe um risco muito grande de encontrá-lo também no Brasil", conta Durigon, que faz parte do projeto.
Vale destacar que essa versão do influenza ainda não foi detectada no país até o momento.
O Ministério da Agricultura e Pecuária também realiza análises constantes nas granjas.
"E isso é estratégico, uma vez que nosso país é um dos maiores exportadores de frango no mundo. Se o H5N1 chega aqui e afeta os produtores locais, com a necessidade de abater os animais, isso representaria um grande problema à economia", complementa o virologista do ICB-USP.
Além da vigilância constante, outra ação primordial nesse contexto é criar e testar formas de prevenção e tratamento da gripe aviária.
Nessa seara, as notícias são positivas. "Os remédios antivirais que temos à disposição são eficazes contra o H5N1 em circulação", pontua Ferreira.
As vacinas contra este influenza também já estão em desenvolvimento. No Brasil, o Instituto Butantan anunciou no início de março que já trabalha num imunizante contra esse patógeno.
"A expectativa é finalizar os testes pré-clínicos ainda neste ano e avançar para o estudo clínico [que envolve voluntários humanos] em 2024", afirma a instituição em nota publicada.
Siqueira estima que, diante dos planos de contingência elaborados nas últimas décadas, seria possível ter doses de vacina contra o H5N1 prontas para campanhas de larga escala em cinco ou seis meses.
"Não sabemos se esse vírus vai causar uma pandemia em um, cinco ou 100 anos. Mas precisamos estar preparados para isso", diz a especialista.
Do ponto de vista individual, existem algumas medidas básicas que já podem ser colocadas em prática para proteger a si mesmo — e diminuir o risco de uma pandemia futura.
"O cuidado mais importante nesse momento é não tocar ou chegar perto de uma ave morta que você vir na praia, na mata ou em qualquer lugar", orienta Siqueira.
Nesses casos, a recomendação é notificar as autoridades locais, que podem enviar funcionários com equipamentos de proteção para fazer a remoção e mandar o corpo para análise em laboratório.
E, naturalmente, os protocolos básicos de fazer a higiene das mãos e ficar afastado das atividades se estiver com sintomas de infecção respiratória continuam a valer.
"Isso é algo que foi reforçado na pandemia de COVID-19 e que precisaremos manter pelo resto das nossas vidas", conclui a microbiologista da FioCruz.

sexta-feira, 24 de março de 2023

Justiça cobra Eletronuclear por deixar de informar vazamento de material radioativo em Angra dos Reis

Link para matéria completa: https://g1.globo.com/rj/sul-do-rio-costa-verde/noticia/2023/03/23/justica-cobra-eletronuclear-por-deixar-de-informar-vazamento-de-material-radioativo-em-angra-dos-reis.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias 

Resumo: Episódio aconteceu em setembro de 2022, na Baía de Itaorna, onde fica localizada a usina nuclear de Angra 1. Ibama constatou que não houve dano à vida, mas já autuou a empresa em cerca de R$ 2 milhões. Eletronuclear se justifica. Prefeitura acompanha o caso.

A Eletronuclear deixou de avisar a autoridades responsáveis sobre um vazamento de material radioativo no mar de Angra dos Reis (RJ). O episódio aconteceu em setembro de 2022, na Baía de Itaorna, onde fica localizada a usina nuclear de Angra 1.

A pedido do Ministério Público Federal, a Justiça Federal determinou que a empresa realize uma avaliação completa dos possíveis danos causados ao meio ambiente, como contaminação de água, solo e ar, além de eventuais impactos na saúde humana e na vida das pessoas. A liminar foi divulgada nesta quinta-feira (23).

A Eletronuclear também deverá divulgar informações objetivas sobre o acidente e sobre os impactos, além de seguir as normas e licenças estabelecidas pelos órgãos regulatórios. O prazo para o cumprimento é de 30 dias.

Segundo o MPF, a postura da empresa "aponta evidências de que teria havido tentativa de esconder o vazamento, atuação que levanta dúvidas sobre a transparência e a seriedade com que a Eletronuclear trata a questão da segurança e a comunicação de incidentes".

Na liminar, a Justiça Federal também determinou que a empresa evite a realização de qualquer atividade que possa agravar a contaminação da água, solo e ar na área afetada pelo acidente, incluindo o descarte inadequado de resíduos radioativos e a utilização de equipamentos e sistemas que apresentem riscos à segurança e à saúde humana.

Ibama autua Eletronuclear em cerca de R$ 2 milhões

Procurado pelo g1, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) disse que foi informado do vazamento ainda em setembro, mas através de uma denúncia anônima, e não da Eletronuclear. Logo após tomar conhecimento, o Ibama designou uma equipe para inspecionar o local e apurar a veracidade das informações.

Na ocasião, a vistoria realizada não confirmou o vazamento, mas agentes ambientais cobraram a Eletronuclear a respeito de informações. Os documentos apresentados confirmaram o vazamento, que teria sido provocado por "degradação (corrosão) do sistema de contenção de vazamentos".

No fim de fevereiro, logo após a conclusão da análise dos relatórios apresentados pela empresa e pela CNEN, o Ibama autuou a Eletronuclear em cerca de R$ 2 milhões por descarte irregular de substância radioativa, além de R$ 101 mil por descumprimento de condicionante, estabelecida na Licença de Operação que autoriza o funcionamento da empresa.

Ainda de acordo com o Ibama, relatórios de fiscalização elaborados pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) apontam que "as ações da proteção radiológica para controle de espalhamento de contaminação foram adequadas em relação à técnica e ao tempo após e detecção do evento" e que "pode-se afirmar que nenhum limite de controle radiológico foi violado".

Ou seja, os documentos indicam que o derramamento de líquido radiologicamente contaminado não causou dano à saúde da população no entorno da usina. Para este relatório, foram realizadas análises e contabilizações radiológicas, além de coletas de água do mar e sedimento marinho.

No entanto, o Ibama constatou que a empresa descumpriu a condicionante ambiental 1.4 da Licença de Operação (LO) Nº 1217/2014, que determina que "os acidentes ambientais deverão ser comunicados via Sistema Nacional de Emergências Ambientais (SIEMA) imediatamente após o ocorrido".

O Ibama também informou ao g1 que estuda medidas adicionais para evitar que episódios semelhantes voltem a ocorrer.

O que diz a Eletronuclear

"A Eletronuclear informa que, no dia 16/09/22, a usina Angra 1 fez uma liberação não programada de um pequeno volume de água contendo substâncias de baixo teor de radioatividade. Como os valores da liberação se encontravam abaixo dos limites da legislação que caracterizam a ocorrência de um acidente, a empresa tratou o evento como incidente operacional e informou o assunto nos relatórios regulares previstos.

Inicialmente, por conta própria e depois sob demanda do Ibama, a empresa intensificou a monitoração radiológica no local de despejo das águas fluviais sem encontrar nenhum resultado significativo.

Na semana passada, a Eletronuclear recebeu do Ministério do Meio Ambiente os relatórios de fiscalização e autos de infração provenientes referentes ao assunto. A empresa respeita a avaliação dos técnicos do Ibama, mas destaca que pretende recorrer junto ao órgão, uma vez que entende ter cumprido o que determina a legislação.

domingo, 8 de janeiro de 2023

O mamífero que não envelhece e pode ser a chave para humanos vencerem o câncer

Link para matéria completa: https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2023/01/o-mamifero-que-nao-envelhece-e-pode-ser-a-chave-para-humanos-vencerem-o-cancer.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

Resumo: O rato-toupeira-pelado parece desafiar o envelhecimento e ser imune ao câncer. Os cientistas estão estudando essas estranhas criaturas nativas da África para entender como os seres humanos podem ter uma vida mais longa e saudável.


Não é segredo para ninguém que o rato-toupeira-pelado —aquele roedor enrugado e quase sem pelos, com longos dentes salientes— não é o animal mais atraente do planeta.

Mas essas criaturas compensam sua pouca beleza com uma série de características extraordinárias que vêm chamando a atenção de zoólogos e pesquisadores da medicina em todo o mundo.
Apesar do seu pequeno tamanho (que varia de 7,6 a 33 cm), o rato-toupeira-pelado vive, em média, 30 anos. O roedor é resistente a doenças crônicas, incluindo diabetes, e tem um notável sistema reprodutor.
Eles também beneficiam o meio ambiente, agindo como "engenheiros do ecossistema" e aumentando a biodiversidade do solo ao cavar as tocas onde fazem seus ninhos.
Imunes às dores e ao envelhecimento, essas criaturas de aparência estranha vêm fascinando os cientistas há muito tempo. Agora, as pesquisas estão revelando que eles podem deter a chave para entender uma série de condições humanas, como o câncer e o envelhecimento.
Historicamente, estudamos os ratos e camundongos para entender os segredos da biologia humana. Mas os cientistas acreditam que o rato-toupeira-pelado tem vantagens especiais para a pesquisa médica.
O nome científico da espécie —Heterocephalus glaber— significa essencialmente "coisa careca com cabeça diferente".
O rato-toupeira-pelado é nativo dos ambientes quentes e tropicais do nordeste da África. No seu ambiente natural, eles vivem em grandes colônias subterrâneas, formando um labirinto de túneis e câmaras que se estende por uma área correspondente a diversos campos de futebol.
As rígidas condições onde vivem os ratos-toupeiras-pelados, com baixos níveis de oxigênio, podem ser uma indicação de algumas das características incomuns da sua espécie.
A maior parte da vida aeróbica enfrentaria dificuldades para sobreviver nesses ambientes com pouco oxigênio, mas o rato-toupeira-pelado é o animal que tem a vida mais longa entre os roedores.
Enquanto um camundongo de porte similar pode viver por dois anos, o rato-toupeira-pelado atinge 30 anos de vida ou mais. Se calcularmos em proporção ao tamanho dos seres humanos, aproximadamente, seria como se nós tivéssemos um primo enrugado capaz de viver até 450 anos.

ANIMAIS SOCIAIS CHEFIADOS POR 'RAINHA'
O rato-toupeira-pelado é encontrado nas áreas selvagens do Quênia, Etiópia e da Somália. Ele vive em colônias com cerca de 70 a 80 membros. Algumas chegam a abrigar até 300 indivíduos.
São animais altamente sociais. Suas colônias são chefiadas por uma rainha e seguem uma hierarquia rígida.
Seus membros desempenham diferentes funções. Existem, por exemplo, os que trazem as partes subterrâneas das plantas, como bulbos, raízes e tubérculos que eles comem, além de fezes.
O estilo de vida subterrâneo dos ratos-toupeiras-pelados ajuda a protegê-los do frio, da chuva e de outros extremos climáticos
Os ratos-toupeiras-pelados vivem em grandes colônias subterrâneas, que reúnem até 300 indivíduos - Alamy
A biologia da espécie é incrivelmente única. Os ratos-toupeiras-pelados são considerados "extremófilos", ou seja, eles conseguem sobreviver em ambientes extremos embaixo da terra, segundo o pesquisador Ewan St. John Smith, que estuda o sistema nervoso sensorial na Universidade de Cambridge, no Reino Unido.
Uma das suas características mais marcantes é que é difícil dizer exatamente a idade de um rato-toupeira-pelado, pois seus sinais de declínio físico são limitados.
Enquanto os seres humanos podem ficar cada vez mais enrugados, grisalhos ou suscetíveis a doenças crônicas, "os sinais comuns de envelhecimento esperados na maioria dos mamíferos realmente não parecem acontecer" nesses roedores, segundo Smith. Sua função cardíaca, composição do corpo, qualidade dos ossos ou metabolismo não sofrem mudanças significativas.
Na Universidade de Cambridge, a equipe de Smith mantém cinco colônias, que abrigam cerca de 160 ratos-toupeiras-pelados em uma sala aquecida a cerca de 30 °C e umidade de 60%.
"Mantenho meus animais em Cambridge há 10 anos e nunca tive um sequer que morresse simplesmente de causas naturais", afirma Smith. Ele conta que, em cativeiro, as brigas entre os roedores costumam ser a principal causa de morte.
Seu estilo de vida subterrâneo pode aumentar suas chances de sobrevivência, protegendo as colônias contra o frio, a chuva e os extremos climáticos. No ambiente selvagem, a principal causa de morte são seus predadores, como as cobras.
É um quadro muito diferente das causas comuns de morte em seres humanos. "Um em cada dois humanos provavelmente terá câncer", segundo Smith. "Os ratos e os camundongos têm probabilidade similar de desenvolver câncer, mas os ratos-toupeiras-pelados quase nunca têm a doença —é muito raro."

Por que esse bicho escapa de doenças?
O motivo por que o rato-toupeira-pelado escapa do câncer ainda é um mistério. Inúmeras hipóteses foram apresentadas ao longo dos anos e os cientistas lutam para fornecer uma explicação consistente.
Uma teoria diz que os ratos-toupeiras-pelados têm uma forma particularmente eficaz de mecanismo anticâncer chamada senescência celular —uma adaptação evolutiva que evita que as células lesionadas se dividam fora de controle e desenvolvam câncer. Outra teoria sugere que esses roedores secretam um "superaçúcar" complexo que impede que as células se aglomerem e formem tumores.
As pesquisas mais recentes concentram-se em condições próprias dos seus corpos que impedem a multiplicação das células cancerosas. Especialistas da Universidade de Cambridge indicam que interações com o microambiente interno do rato-toupeira-pelado - o complexo sistema de células e moléculas em volta de uma célula, incluindo o sistema imunológico —evitam a doença e não um mecanismo inerente resistente ao câncer.
Em um experimento na Universidade de Cambridge, pesquisadores analisaram 79 linhagens celulares diferentes, cultivadas em tecidos do intestino, rim, pâncreas, pulmão e pele de 11 ratos-toupeiras-pelados individuais. Os pesquisadores infectaram as células com vírus modificados para introduzir genes causadores do câncer.
Para sua surpresa, as células dos ratos-toupeiras-pelados infectados começaram a multiplicar-se rapidamente. Isso confirmou que é o ambiente do corpo do roedor que evita o desenvolvimento do câncer e não uma característica em nível celular.
A questão pode ainda estar sem resposta, mas o que sabemos é que "o câncer é fundamentalmente o resultado de uma mutação, que causa a proliferação das células de forma descontrolada", afirma Smith. "Em comparação com outras espécies, o rato-toupeira-pelado tem velocidade de mutação muito baixa."
Animais com períodos de vida mais curtos tipicamente têm velocidades de mutação mais altas. Mas, inesperadamente, as velocidades de mutação dos ratos-toupeiras-pelados são similares às dos mamíferos de vida mais longa, como as girafas. E velocidade de mutação mais baixa significa que o animal é menos propenso a desenvolver mutações e câncer em um dado período de tempo.

Sem dor
Mas a característica mais estranha do rato-toupeira-pelado talvez seja sua insensibilidade à dor. "Provavelmente, é o resultado de uma adaptação evolutiva ao [seu] ambiente com alto nível de dióxido de carbono", explica Smith.
O ar que esses roedores respiram é mais rico em CO2 que o ar da atmosfera. Se esse ar exalado ficar preso em túneis subterrâneos, o teor de CO2 se acumula.
Para a maioria dos mamíferos, este seria um problema. "O dióxido de carbono reage com água para formar um ácido, chamado ácido carbônico, que pode ativar os nervos para causar dor", afirma o pesquisador.
Em muitas doenças inflamatórias, como a artrite reumatoide, as áreas de inchaço dos tecidos, muitas vezes, podem ficar ácidas e causar dor. Mas "o rato-toupeira-pelado não sente o ácido como algo doloroso, não da forma que o suco de limão ou vinagre espalhado sobre cortes da pele causa dor", explica Smith.
Ele estudou a base molecular para essa tolerância e identificou um gene que faz com que o ácido aja como anestésico, em vez de ativador dos nervos sensoriais do rato-toupeira-pelado.

Puberdade e reprodução
A professora de fisiologia e metabolismo Gisela Helfer, da Universidade de Bradford, no Reino Unido, afirma que o rato-toupeira-pelado é também o "modelo perfeito" para estudar a puberdade humana.
O rato-toupeira-pelado e o rato-toupeira-da-damaralândia são os dois únicos exemplos de mamíferos eussociais, que vivem em colônias por gerações seguidas, com uma fêmea responsável pela procriação e os demais indivíduos trabalhando juntos para sustentar a ninhada.
Como as abelhas, sua poderosa rainha governa a colônia de ratos-toupeiras, acasalando com um a três machos de cada vez. Outros indivíduos desempenham diferentes papéis, como os trabalhadores que cavam as tocas da colônia com seus dentes salientes e reúnem forragem para servir de alimento, fornecendo à rainha as raízes e bulbos que ela irá comer.
Normalmente, existe um casal fértil por colônia e o restante dos animais não passa pela puberdade, segundo Helfer. Mas, se um rato-toupeira-pelado for retirado da sua colônia, ele começará rapidamente a produzir esteroides sexuais e o animal passa pela puberdade.
"Os seres humanos têm uma longa fase pré-puberdade de cerca de oito a 12 anos", explica ela. "Quando a criança entra na puberdade, hormônios são liberados no seu cérebro e levam à produção dos hormônios sexuais, permitindo o amadurecimento do aparelho reprodutor."
Este processo espelha a progressão da puberdade entre os ratos-toupeiras-pelados, quando as fêmeas subordinadas são isoladas da rainha (a fêmea dominante) na colônia.
Já os ratos e camundongos passam pela puberdade de forma particularmente rápida, em até duas semanas após o nascimento. Por isso, eles são um modelo ruim para estudar os hormônios sexuais.
Helfer e outros cientistas estão examinando cada vez mais os ratos-toupeiras para investigar a influência dos hormônios sexuais, especialmente estrogênio e testosterona, além dos cromossomos sexuais.
Esta informação pode lançar uma luz sobre os tratamentos médicos, como bloqueadores da puberdade, terapia de substituição hormonal, fertilização in vitro e tratamento da menopausa —questões que, segundo Helfer, "estão na linha de frente da saúde no momento".

'Incrível inteligência' e 'hábitos malucos'
Helfer acha fascinantes os ratos-toupeiras-pelados que ela mantém na Universidade de Bradford, devido à sua "incrível inteligência" e a alguns hábitos "malucos".
Ela conta que, dentro das suas colônias altamente organizadas, os roedores têm câmaras de nidificação para dormir e banheiros para manter seus habitats limpos. E, quando os filhotes nasceram, ela ficou surpresa ao ver que a colônia havia criado uma "creche", para cuidar dos jovens animais.
Eles também "se movem para frente e para trás com a mesma rapidez" e raramente usam seus pequenos olhos redondos, preferindo confiar nos seus bigodes sensoriais para orientar-se embaixo da terra, segundo explica a professora.
Os ratos-toupeiras-pelados também têm formas características de comunicação entre si, determinando quem é amigo ou estranho por meio de diversos dialetos, de forma muito similar aos seres humanos.
Seu "chilro" clássico transmite informações exclusivas do grupo do animal. Um estudo indica que ele é aprendido culturalmente, não pela genética. Os ruídos referem-se frequentemente à rainha e filhotes resultantes de cruzamento adotam o tom da colônia que os criou, que pode mudar em caso de substituição da rainha.
Um estudo mapeou 18 vocalizações diferentes, incluindo chamados de alarme, de solicitação de alimento, de acasalamento e de organização do banheiro. Quando os predadores se aproximam, os animais usam diversos chamados de alarme diferentes para defender a colônia.
Outra forma de cooperação entre os ratos-toupeiras-pelados como colônia é por meio da agricultura sustentável.
Os horários das refeições envolvem trazer para suas tocas grandes tubérculos, como batatas-doces, para que sejam roídos com outros membros da colônia. Cada refeição pesa até 50 kg.
Os ratos-toupeiras removem as camadas externas venenosas da planta, comem sua refeição e preenchem a parte consumida com solo, para que o tubérculo se regenere, tornando-se outra refeição posteriormente.
De fato, sua comunicação complexa, vida longa, coesão social e administração cuidadosa dos recursos alimentícios fazem com que os ratos-toupeiras-pelados demonstrem fortes sinais de alta inteligência.
E essas criaturas exibem outras características notáveis. As pesquisas são limitadas, mas, na África do Sul, o rato-toupeira comum e o rato-toupeira-do-cabo receberam o título de "engenheiros do ecossistema".
Na Reserva de Flores Wayland em Darling, a cerca de 60 km ao norte da Cidade do Cabo, encontra-se um dos melhores locais do mundo para a biodiversidade, repleto de flores silvestres, abelhas e outros insetos.
Como parte do seu pós-doutorado na Universidade de Pretória, na África do Sul, Nicole Hagenah estudou o papel desempenhado por duas espécies diferentes de ratos-toupeiras —o comum e o rato-toupeira-do-cabo - para ajudar a melhorar os solos ricos e férteis da região.
Seu estudo durou três anos e ela concluiu que, ao escavar seus túneis, as duas espécies de ratos-toupeiras descartavam o solo escavado, depositando-o na forma de montes sobre a superfície.
Esses montes continham níveis mais altos de nutrientes, especialmente nitrogênio, em comparação com o solo existente sobre a superfície.
"Acreditamos que isso ocorre porque o solo subterrâneo que foi empurrado continha material vegetal não comido decomposto e, talvez, fezes e urina", afirma Hagenah. O solo dos montes também era menos compacto que o solo das proximidades.
Portanto, os ratos-toupeiras comuns e do cabo ajudaram as plantas de duas formas.
"Primeiro, as plantas precisam de nutrientes para crescer e um dos nutrientes mais importantes para as plantas é o nitrogênio", explica a pesquisadora. "Segundo, o monte menos compacto pode ter facilitado a penetração da água no solo, o que também é benéfico para as plantas, que precisam de água."

A importância —e as dificuldades— dos estudos
Por mais extraordinários que sejam os ratos-toupeiras-pelados, biologicamente falando, eles não são a espécie mais simples para observar e trabalhar, o que significa que relativamente poucos grupos de pesquisa em todo o mundo estudam esta espécie incrível.
"Embora sua biologia extrema seja fascinante e forneça grandes conhecimentos, não é fácil para todos formar sua própria instalação de pesquisa para esta espécie", afirma Smith.
Além da logística de reprodução de ambientes quentes e úmidos, o ciclo de vida de um rato-toupeira-pelado é mais longo que o dos ratos ou camundongos. Normalmente, leva 75 dias para o nascimento e existe apenas um casal se reproduzindo, o que resulta em longo tempo de espera para planejar experimentos.
Por este motivo, Smith criou a Iniciativa do Rato-Toupeira-Pelado, para colaborar com especialistas em outros campos da medicina, como o tratamento do câncer, e usar seus animais para sustentar novas linhas de pesquisa.
As colônias de ratos-toupeiras-pelados de Smith, se viverem sua idade natural completa, provavelmente ultrapassarão a carreira do pesquisador.
"Muito poucas pessoas do mundo têm muitos ratos-toupeiras-pelados com mais de 30 anos de idade", afirma ele. "Os animais que nasceram nas minhas colônias na semana passada, por exemplo, só atingirão seu período de vida máximo depois que eu me aposentar."
Se os cientistas conseguirem desvendar por que esses mamíferos extremófilos vivem uma vida saudável, eles poderão "traduzir" esse conhecimento em tratamentos preventivos ou medicações que tratem o câncer depois que ele surgir, segundo Smith. E pode também haver outros benefícios na pesquisa desses animais altamente incomuns, alguns dos quais dificilmente podem ser previstos.
Smith usa como exemplo os testes de PCR para detectar Covid-19.
"A razão pela qual os testes de PCR funcionam é porque eles usam uma enzima que foi extraída de uma espécie de bactéria que vive nos respiradouros térmicos do Parque Yellowstone [nos Estados Unidos]", explica ele. "Viver em altas temperaturas significa que as enzimas da bactéria evoluíram para que ficassem estáveis sob altas temperaturas, quando as reações biológicas acontecem com mais rapidez."
"Se não estudarmos a biologia em condições extremas, acabamos perdendo algumas coisas", conclui Smith.