quinta-feira, 15 de junho de 2023

Cientistas criam primeiro embrião humano sintético usando células-tronco

Link para matéria completa: https://canaltech.com.br/ciencia/cientistas-criam-1o-embriao-humano-sintetico-usando-celulas-tronco-252872/

Resumo: Em um extraordinário avanço científico, pesquisadores conseguiram criar embriões humanos sintéticos utilizando células-tronco, dispensando o uso de óvulos ou espermatozoides. Lembrando os embriões nos primeiros estágios de desenvolvimento natural, estas versões artificiais poderão permitir estudos inéditos acerca de distúrbios genéticos e causas biológicas de aborto espontâneo recorrente, por exemplo. Alguns cientistas citam planos de usar os embriões sintéticos para doação de órgãos.

O trabalho, realizado por cientistas da Universidade de Cambridge e do Instituto de Tecnologia da Califórnia, também acaba levantando questões éticas e legais, já que as entidades laboratoriais ficam de fora da legislação atual da maioria dos países, como o Reino Unido, onde a pesquisa foi realizada. As estruturas não possuem um coração pulsante ou sequer o início de um cérebro, mas há, nelas, células que normalmente formarão a placenta, como o saco vitelino e o próprio embrião.

Em uma conferência na última quarta-feira (14/6/2023), a pesquisadora Magdalena Żernicka-Goetz descreveu como o trabalho foi feito. Não há, ainda, previsão de uso clínico para os embriões sintéticos, e seria ilegal implantá-los no útero de qualquer paciente. Os cientistas também não sabem se as estruturas têm o potencial de continuar amadurecendo para além dos primeiros estágios de desenvolvimento embrionário.

Uma das motivações dos cientistas é estudar o período conhecido como “caixa preta” do desenvolvimento humano, chamado assim por ser permitido o cultivo de embriões em laboratório pelo limite de 14 dias. Os próximos estágios possíveis são estudados apenas em imagens de tomografia e ressonância em grávidas e embriões doados para pesquisa, muito mais à frente no desenvolvimento.

Modelar esse desenvolvimento com células-tronco poderia permitir estudar esse período crítico do nosso crescimento, sem usar embriões “reais” na pesquisa.

Em investigações anteriores, tanto a equipe de Żernicka-Goetz quanto outra rival, no Instituto Weizmann, em Israel, conseguiram fazer células-tronco de camundongos se reorganizar para criar estruturas semelhantes a embriões, chegando até a desenvolver trato intestinal, o início de um cérebro e de um coração pulsante. Isso desencadeou uma corrida para repetir o feito com células humanas, o que se mostrou ser possível na mais recente pesquisa.

 (Imagem: Jacob Hanna/ Weizmann Institute of Science)

Pesquisas com embriões de camundongos, como o aqui representado, foram pioneiras no desenvolvimento de embriões sintéticos a partir de células-tronco: a ciência tem avançado mais rápido do que a legislação, nesse caso. 

Um estudo detalhando a novidade ainda está para ser publicado, mas os cientistas já descreveram ter cultivado os embriões para um estágio pouco além do equivalente a 14 dias de desenvolvimento para um embrião natural.

Cada modelo estrutural, criado a partir de uma célula-tronco embrionária única, chegou ao início de um marco chamado de gastrulação, quando o embrião passa de uma folha de células para a formação de linhas celulares distintas, formando os eixos básicos do corpo. Embora os órgãos não tenham iniciado o desenvolvimento nesse estágio, já podem ser vistas células primordiais, as precursoras dos óvulos e espermatozoides.

Questões legais

O trabalho deixa claro que a ciência tem corrido, ao menos neste campo, mais rápido que a legislação. Cientistas de todo o mundo já buscam traçar orientações voluntárias para governar o trabalho sobre os embriões sintéticos — se a intenção é, afinal de contas, criar modelos iguais aos de embriões normais, então eles deveriam ser tratados de maneira semelhante, segundo especialistas. Na legislação atual, eles não são, e isso gera preocupações.

A legislação ainda é confusa quando falamos sobre embriões sintéticos — se eles são como os naturais, porque não tratá-los assim perante a lei?

Um dos principais questionamentos — e que ainda não tem resposta — é se as estruturas poderiam, teoricamente, se tornar um ser vivo. Os embriões de camundongo, por exemplo, apesar de ser quase idênticos a embriões naturais, não se tornaram seres vivos ao serem implantados em úteros de fêmeas.

Em abril, pesquisadores implantaram embriões sintéticos de símios no útero de fêmeas adultas, na China, mostrando os primeiros sinais de gravidez, mas não passando dos primeiros dias. Não sabemos, ainda, se a barreira para o desenvolvimento é técnica ou biológica. Esse desconhecimento, segundo os cientistas, coloca mais pressão ainda para legislação restrita em pesquisas como essas.

sábado, 10 de junho de 2023

Cientistas criam moléculas artificiais que se comportam como as reais

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Resumo: Em estudo publicado na revista Science Daily na última quinta-feira (8/6/2023), cientistas desenvolveram moléculas artificiais que se comportam como as moléculas orgânicas reais. Conforme os próprios autores do artigo ressaltam, a descoberta tem potencial para desencadear impactos positivos em todos os campos científicos.

Os cientistas contam que o projeto começou quando surgiu a ideia maluca de construir um simulador quântico. Para criar moléculas artificiais que se assemelhassem a moléculas reais, o grupo desenvolveu um sistema para capturar elétrons: "Os elétrons cercam uma molécula como uma nuvem, e usamos esses elétrons aprisionados para construir uma molécula artificial", diz o estudo.

Segundo os pesquisadores, a dificuldade está em entender como certas as moléculas reagem e como mudam. "Queríamos simular moléculas, para que pudéssemos ter os recursos necessários para dobrá-las e ajustá-las de maneiras quase impossíveis com moléculas reais. Dessa forma, podemos dizer algo sobre moléculas reais sem ter que lidar com os desafios que elas apresentam", justificam os pesquisadores.

Através desse simulador, os pesquisadores criaram uma versão artificial de uma das moléculas orgânicas básicas da química: o benzeno. Trata-se do componente inicial de uma grande quantidade de produtos químicos.

Ao usar o simulador, os cientistas podem entender muito melhor as moléculas e suas reações. "Ao fazer uma versão simulada, podemos procurar novas propriedades e funcionalidades de certas moléculas e avaliar se valerá a pena fazer o material real”, explicam.

Em um futuro distante, a expectativa é que a técnica ajude a entender reações químicas passo a passo, ou fazer dispositivos eletrônicos artificiais de uma única molécula. De qualquer maneira, os próprios autores reconhecem que é um longo caminho a percorrer. "Agora podemos começar a entender as moléculas de uma forma que nunca fizemos antes", concluem.

O que é uma molécula?

Uma molécula é uma substância composta por átomos unidos entre si por meio de ligações químicas. Trata-se da estrutura fundamental formada pela combinação de dois ou mais átomos — que, por sua vez, representam a menor unidade fundamental de um elemento químico que mantém as propriedades desse elemento. É a partícula básica que compõe toda a matéria.

Em estudos anteriores, cientistas descobriram uma molécula que combate mais de 300 tipos de bactérias resistentes. A molécula em questão se chama fabimicina, e ela supera as barreiras ao passar pela camada externa da célula e ainda consegue evitar a eliminação de muitas bactérias saudáveis.

Em março, pela primeira vez, cientistas conseguiram formar moléculas sem aplicar energia, apenas contando com as propriedades estranhas da mecânica quântica.

terça-feira, 30 de maio de 2023

Paciente com câncer há 13 anos tem remissão completa em SP em um mês após terapia celular em estudo na rede pública

Link para matéria completa: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2023/05/29/paciente-com-cancer-ha-13-anos-tem-remissao-completa-em-sp-em-um-mes-apos-terapia-celular-em-estudo-na-rede-publica.ghtml

Resumo: Terapia combate a doença com células de defesa do paciente modificadas em laboratório e é estudada para três tipos de cânceres: leucemia linfoblástica B, linfoma não Hodgkin de células B e mieloma múltiplo.

Um protocolo adotado pela Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Instituto Butantan e o Hemocentro de Ribeirão Preto, está trazendo para a rede pública de saúde uma técnica considerada revolucionária no combate ao câncer, utilizada em poucos países.

Até agora, 14 pacientes foram tratados com o CAR-T Cell com verbas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Todos os pacientes tratados tiveram remissão de ao menos 60% dos tumores. A recuperação foi no Sistema Único de Saúde (SUS).

Um deles é Paulo Peregrino, de 61 anos, que lutava contra o câncer havia 13 anos e estava prestes a receber cuidados paliativos quando foi submetido ao tratamento em abril e, em apenas um mês, teve remissão completa do seu linfoma.

No segundo semestre, 75 pacientes devem ser tratados com o CAR-T Cell com verba pública após autorização da Anvisa para o estudo clínico. Atualmente, o tratamento só existe na rede privada brasileira, ao custo de ao menos R$ 2 milhões por pessoa.

O método tem como alvo três tipos de cânceres: leucemia linfoblástica B, linfoma não Hodgkin de células B e mieloma múltiplo, que atinge a medula óssea. O tratamento contra mieloma múltiplo ainda não está disponível no país. 

"Devido ao alto custo, este tratamento não é acessível em grande parte dos países do mundo. O Brasil, por outro lado, encontra-se em uma posição privilegiada e tem a rara oportunidade de introduzir este tratamento no SUS em curto período de tempo", diz Dimas Covas, coordenador do Centro de Terapia Celular CEPID-USP e do Núcleo de Terapia Celular do Hemocentro de Ribeirão Preto, que desenvolveu a versão brasileira dessa tecnologia.

Remissão completa em curto período

Paulo é o caso mais recente de remissão completa em curto período de tempo do grupo de estudos com os 14 pacientes do Centro de Terapia Celular.

Ele teve alta no domingo (28) depois de ficar sob cuidados médicos no Hospital das Clínicas da cidade de São Paulo.

Vanderson Rocha, professor de hematologia, hemoterapia e terapia celular da Faculdade de Medicina da USP e coordenador nacional de terapia celular da rede D’Or, está à frente do caso de Paulo.

“Foi uma resposta muito rápida e com tanto tumor. Fico até emocionado [ao ver as duas ressonâncias de Paulo]. Fiquei muito surpreso de ver a resposta, porque a gente tem que esperar pelo menos um mês depois da infusão da célula. Quando a gente viu, todo mundo vibrou. Coloquei no grupo de professores titulares da USP e todo mundo impressionado de ver a resposta que ele teve”, comemorou o especialista.

Entre os outros 13 pacientes tratados como Paulo, 69% tiveram remissão completa em 30 dias. O primeiro paciente tratado com a técnica na rede pública do Brasil teve resultados parecidos com os de Paulo, mas morreu por um acidente doméstico em casa.


sábado, 13 de maio de 2023

Cientistas revelam versão renovada e mais diversificada do genoma humano

Link para matéria completa: https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2023/05/cientistas-revelam-versao-renovada-e-mais-diversificada-do-genoma-humano.shtml

Resumo: 'Pangenoma' coleta sequências genéticas de 47 pessoas de diferentes origens étnicas e pode expandir alcance da medicina personalizada

Mais de 20 anos depois que cientistas divulgaram pela primeira vez um esboço de sequência do genoma humano, o livro da vida passa por uma revisão há muito necessária.

Uma edição mais precisa e inclusiva do nosso código genético (sic) foi publicada nesta quarta-feira (10), marcando um passo importante na direção de uma compreensão mais profunda da biologia humana e da medicina personalizada para pessoas de uma ampla variedade de origens raciais e étnicas.


Diferentemente da referência anterior —que foi amplamente baseada no DNA de um homem mestiço de Buffalo, em Nova York, com contribuições de algumas dezenas de outros indivíduos, principalmente descendentes de europeus–, o novo "pangenoma" incorpora sequências genéticas quase completas de 47 homens e mulheres de diversas origens, incluindo afro-americanos, caribenhos, sul-americanos, pessoas do leste da Ásia e do oeste da África. 

O mapa do genoma renovado representa uma ferramenta crucial para cientistas e médicos que desejem identificar variações genéticas associadas a doenças. Ele também promete oferecer tratamentos que podem beneficiar todas as pessoas, independentemente de sua raça, etnia ou ascendência, disseram os pesquisadores.

"Isto era necessário há muito tempo –e eles fizeram um trabalho muito bom", disse Ewan Birney, geneticista e vice-diretor geral do Laboratório Europeu de Biologia Molecular, que não participou do esforço. "Ele vai melhorar nossa compreensão refinada das variações, e essa pesquisa abrirá novas oportunidades para aplicações clínicas."

Alimentado pela mais recente tecnologia de sequenciamento de DNA, o pangenoma agrupa todos os 47 genomas únicos em um único recurso, fornecendo a imagem mais detalhada do código que movimenta nossas células. As lacunas na referência anterior estão agora preenchidas, com quase 120 milhões de letras de DNA antes perdidas adicionadas ao código de 3 bilhões de letras.

Foi-se a ideia de um fio totêmico de DNA que se estende por 1,80 metro quando desenrolado e esticado em linha reta. A referência renovada se assemelha a um labirinto num milharal, com caminhos alternativos e trilhas laterais que permitem aos cientistas explorar uma gama mais ampla da diversidade genética encontrada em pessoas de todo o mundo.

O doutor Eric Green, diretor do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano, a agência governamental que financiou o trabalho, compara o pangenoma a um novo tipo de manual para oficinas mecânicas. Enquanto antes cada mecânico só tinha as especificações de um tipo de carro, agora existe um plano mestre que abrange diferentes marcas e modelos.

"Passamos de ter um projeto realmente bom do Chevy para agora termos projetos de 47 carros representativos de 47 fabricantes diferentes", disse ele.

No devido tempo, disseram os especialistas, o pangenoma revolucionará o campo da medicina genômica.

"Teremos o benefício de realmente nos entendermos muito melhor como espécie", disse Evan Eichler, cientista do genoma da Universidade de Washington. Eichler estava entre os mais de cem cientistas e bioeticistas que descreveram a nova referência do pangenoma na revista Nature.

Os arquitetos do projeto continuam a adicionar grupos populacionais, com o objetivo de incluir pelo menos 350 genomas de alta qualidade que abranjam a maior parte da diversidade humana global.

"Queremos representar todos os ramos da árvore humana", disse Ira Hall, geneticista que lidera o Centro de Saúde Genômica de Yale.

Alguns dos novos genomas virão de nova-iorquinos que participaram anteriormente de um programa de pesquisa na rede hospitalar Mount Sinai. Se seus dados preliminares de DNA parecerem refletir certos antecedentes genéticos sub-representados, esses indivíduos serão convidados a participar do projeto pangenoma.

Algumas lacunas talvez nunca sejam preenchidas na referência disponível –conforme previsto no projeto.

Tentativas anteriores de captar a diversidade genética humana frequentemente extraíam dados de sequências de populações marginalizadas, sem levar em consideração suas necessidades e preferências. Informados por esses erros éticos, os coordenadores do pangenoma agora estão colaborando com grupos indígenas para desenvolver políticas formais de propriedade dos dados.

"Ainda estamos lidando com a questão da soberania nativa e tribal", disse Barbara Koenig, bioética da Universidade da Califórnia em San Francisco, que participou do projeto.

ATENÇÃO: Contém o erro clássico de chamar a "informação genética" de "código genético". O código genético, como sabemos, é a relação entre códons e aminoácidos e é praticamente imutável em todos os seres vivos.

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Bebê com DNA de três pessoas nasce no Reino Unido, diz jornal

Link para matéria completa: https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2023/05/bebe-com-dna-de-tres-pessoas-nasce-no-reino-unido-diz-jornal.shtml

Resumo: Procedimento de doação mitocondrial já havia sido usado no México, de acordo com o The Guardian.

Um bebê com DNA de três pessoas nasceu no Reino Unido a partir do uso de uma técnica conhecida como doação mitocondrial, segundo o jornal britânico The Guardian.

O procedimento usa o tecido de óvulos de pessoas saudáveis para criar embriões livres de mutações genéticas e evita que o bebê herde doenças incuráveis, como a síndrome de Leigh, que causa problemas no desenvolvimento e morte durante a infância.

A técnica combina o tecido das mitocôndrias do óvulo da doadora com o material genético do espermatozoide e do óvulo dos pais biológicos. Assim, o bebê que nasceu tem material genético de três pessoas —apenas cerca de 37 genes vêm do tecido mitocondrial, ou 0,2% dos seus 20 mil genes.

O esperma do pai é usado para fertilizar os óvulos da mãe e da doadora. O material genético da doadora é removido e substituído pelo do óvulo do casal, com o DNA dos pais e as mitocôndrias saudáveis da doadora.

A técnica foi usada com sucesso pela primeira vez em 2016, no México, quando um médico norte-americano anunciou o nascimento de um bebê de uma mulher da Jordânia que havia sofrido quatro abortos e a perda de dois filhos —um com seis anos e outro com oito meses.

A pesquisa sobre o tema no Reino Unido tentava ajudar mulheres com mutações mitocondriais, que causam doenças incuráveis, a terem filhos saudáveis.

As mitocôndrias são organelas celulares, componentes responsáveis pela energia das células que compõem nossos tecidos. Mutações nessas "usinas" podem afetar o cérebro, o coração, os músculos e o fígado, que se deterioram enquanto a criança cresce.

O parlamento britânico permitiu os procedimentos em 2015. Dois anos depois, o Centro de Fertilidade de Newcastle se tornou o primeiro e único centro nacional habilitado para fazer o tratamento, conhecido pela sigla MDT (tratamento de doação mitocondrial, em tradução livre).

Cada procedimento de aplicação nos embriões precisa ser aprovado pela HFEA, autoridade britânica de saúde, fertilização e embriologia, que já permitiu 30 deles até agora. A agência disse ao The Guardian que "menos de cinco" bebês nasceram por meio deste procedimento até abril, mas não informou ao jornal quantos nasceram além do caso confirmado.

A pesquisa, contudo, também apontou riscos, como um número de mitocôndrias anormais que inevitavelmente são carregadas do óvulo da mãe para o da doadora e se replicam quando o feto está no útero.

sexta-feira, 31 de março de 2023

Gripe aviária: vírus H5N1 preocupa cientistas e pode causar nova pandemia


Resumo: Nas últimas semanas, o influenza H5N1, vírus causador da gripe aviária, voltou a figurar nas manchetes de todo o mundo.
Das cidades litorâneas do Daguestão, na Rússia, à costa do Peru, passando por fazendas de visons na Espanha e granjas nos Estados Unidos, foram vários os episódios registrados de milhões de animais que morreram (ou foram sacrificados) após terem contato com esse agente infeccioso.
Embora o risco ainda seja considerado pequeno, agências de saúde e pesquisadores do mundo inteiro aumentaram o nível de alerta sobre esse tipo de influenza e o potencial que ele possui de causar a próxima pandemia.
"Se o H5N1 ganhar a capacidade de ser transmitido de uma pessoa para outra, esse pode ser um dos problemas mais graves que a humanidade já enfrentou", diz o virologista Edison Luiz Durigon, professor titular do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).
A boa notícia é que, ao contrário do que ocorreu na COVID-19, os governos e serviços de saúde já têm planos definidos sobre o que fazer caso um avanço do H5N1 se torne realidade — algumas vacinas, inclusive, já estão prontas ou em desenvolvimento agora.
Mas, afinal, o que faz esse vírus ser tão preocupante assim? E por que ele voltou a ser assunto recentemente?

Um surto de grandes proporções
A Organização Mundial para Saúde Animal estima que, desde outubro de 2021, foram registrados mais de 42 milhões de casos de infecção por H5N1 em aves. Nesse período, cerca de 15 milhões de aves domésticas morreram em decorrência dessa gripe — e outras 193 milhões precisaram ser sacrificadas.
Trata-se, portanto, do pior surto de gripe aviária já registrado desde que esse vírus foi identificado pela primeira vez.
O H5N1 é conhecido desde 1996, quando foi detectado por cientistas na China e em Hong Kong.
Mas ele ganhou destaque internacional a partir de 2005, ano em que a mortalidade de frangos criados em granjas na Ásia subiu drasticamente. À época, também foram registrados episódios de infecção em seres humanos — todos os afetados tiveram contato direto com aves doentes.
Os surtos também estão se espalhando mundo afora: antes, eles se concentravam na Ásia e na Europa; mais recentemente, começaram a afetar as Américas — por ora, apenas Brasil e Paraguai não tiveram casos confirmados da infecção na América do Sul.
O aumento da circulação está relacionado às aves migratórias, que vão de um continente para o outro de acordo com a estação do ano. Muitas delas viajam infectadas e, quando chegam a um novo lugar, têm contato com as espécies locais.
A partir dessa proximidade, o vírus começa a circular numa nova região — e pode chegar às granjas, que concentram grandes quantidades de aves em armazéns fechados.
A médica veterinária Helena Lage Ferreira, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, explica que o influenza H5N1 passou por uma "diversificação genética".
"O subtipo que está causando o problema atual pertence ao clado 2.3.4.4b. Ele apresenta algumas mutações genéticas que tornaram o vírus mais transmissível entre as aves", aponta.
O "clado" citado pela especialista é um termo que se aproxima do significado de grupos ou variantes, que ficaram muito conhecidas por causa do coronavírus e suas linhagens, como a ômicron, a gama e a delta.
"O H5N1 é diferente de todos os outros. Nas aves, causa uma infecção grave, com sintomas respiratórios, como pneumonia, e até sinais neurológicos", descreve Ferreira, que também é professora da USP.

O 'pulo' para outras espécies
Além do altíssimo número de aves afetadas nos últimos dois anos, o que tem chamado a atenção dos cientistas mais recentemente é a quantidade de mamíferos que também estão se infectando com o H5N1.
Até o momento, casos de gripe relacionados a esse tipo de influenza foram confirmados em ursos, raposas, gambás, guaxinins, visons, focas, golfinhos e leões marinhos.
Na maioria desses casos, a infecção acontece pelo contato próximo das aves com esses mamíferos.
Muitos deles compartilham o mesmo habitat — o contato próximo facilita a transmissão do vírus entre espécies dessas duas classes de animais.
Ou seja: na maioria das vezes, o H5N1 é transmitido diretamente das aves para os mamíferos por meio de fluidos corporais (como gotículas de saliva ou fezes) ou pela predação, em que uma espécie caça e se alimenta da outra.
Recentemente, porém, dois episódios sinalizaram que o H5N1 pode estar adquirindo aos poucos a capacidade de se transmitir de um mamífero para o outro.
O primeiro deles aconteceu na Galícia, no noroeste da Espanha. Em outubro de 2022, os responsáveis por uma fazenda notificaram as autoridades sobre a transmissão desse influenza entre os visons (ou minks), um tipo de animal criado para a fabricação de casacos.
Essa foi a primeira ocasião em que a transmissão do H5N1 entre mamíferos (sem a intermediação de aves) foi confirmada oficialmente. Nenhum ser humano que teve contato com os visons ficou doente.
O segundo episódio ocorreu na costa do Peru, em que mais de 3,4 mil leões-marinhos morreram por causa da gripe aviária.
Esses óbitos na costa peruana ainda estão sob investigação para definir se a cadeia de transmissão envolveu diretamente as aves — ou o H5N1 também começou a ser transmitido entre os leões-marinhos.
Para a microbiologista Marilda Mendonça de Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC-FioCruz), todas essas observações são "preocupantes".
"Para infectar, os vírus precisam se adaptar às condições do hospedeiro", ensina.
"Além de conseguir se encaixar nos receptores das células das novas espécies, o influenza precisa se adequar às condições de temperatura e pH de cada organismo, que são diferentes em aves e mamíferos."
Em outras palavras, esse patógeno passou — e está passando — por uma série de transformações em seu material genético que podem facilitar o "pulo", ou a transmissão entre outras espécies, além daquelas em que ele já era frequentemente observado.
"E isso causa preocupação, pois as condições do organismo de seres humanos são bem mais próximas a de outros mamíferos do que das aves", complementa Siqueira.

O tamanho do perigo
De acordo com a OMS, entre 2003 e março de 2022 foram registrados 864 casos e 456 mortes causadas pelo H5N1 em seres humanos.
Já o CDC dos Estados Unidos estima que, entre janeiro de 2022 e março de 2023, dez pessoas foram diagnosticadas com a gripe aviária. Duas delas morreram.
Esses últimos casos aconteceram em Camboja, China, Espanha, Equador, Reino Unido, Estados Unidos e Vietnã.
Embora os números sejam pequenos, eles permitem calcular uma mortalidade bem alta: no cômputo geral, 52% das pessoas que foram infectadas pelo H5N1 morreram.
"Quando vemos esses casos mais recentes, ligados principalmente ao clado 2.3.4.4b, a mortalidade observada é menor, de 20%. Mesmo assim, é algo que preocupa", pondera Ferreira.
Para comparar, a atual taxa de mortalidade do Sars-CoV-2, o coronavírus que causa a covid-19, fica ao redor de 1%.
"Os vírus influenza costumam se replicar nas vias aéreas superiores e nos pulmões. Já o H5N1 parece ir além e atinge outros órgãos vitais, como o cérebro, o coração, o fígado, o baço e os rins", detalha Durigon.
"Os atestados de óbito para gripe comum costumam dizer que o indivíduo morreu de infecção pulmonar ou pneumonia. Já no H5N1, a causa de morte geralmente é descrita como 'falência múltipla de órgãos'", complementa o virologista.
Que fique claro: os casos de gripe aviária em seres humanos são esporádicos e estão todos relacionados ao contato próximo com animais infectados em granjas ou na natureza. Até o momento, não foi registrado nenhuma cadeia de transmissão direta desse influenza de uma pessoa para outra.
Para isso ocorrer, seria necessário que o H5N1 sofresse mutações — ou se recombinasse com outros tipos de influenza que afetam as pessoas ou as demais espécies (como aves e suínos).
Mas será que isso pode acontecer um dia?
"Eu diria que há uma incerteza, mas nunca estivemos tão próximos de um cenário desses. E uma pandemia de H5N1 seria uma tragédia", alerta Durigon.
"O H5N1 é um candidato a causador de uma futura pandemia. A pergunta aqui não é 'se' isso vai acontecer, mas, sim, 'quando'", afirma Siqueira.

O que fazer?
O médico britânico Jeremy Farrar, cientista-chefe da OMS, parece concordar com a visão dos especialistas brasileiros.
Numa entrevista recente, ele classificou o H5N1 como "uma grande preocupação" e sugeriu que mais atitudes devem ser tomadas para preparar o mundo para a próxima pandemia.
"Se um surto de H5N1 em humanos começar na Europa, no Oriente Médio, nos Estados Unidos ou no México amanhã, não seríamos capazes de vacinar todo mundo ainda em 2023", estimou.
Os pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil ponderam que, ao contrário do que aconteceu com a covid-19, as instituições internacionais e os governos estão mais preparados para lidar com eventual crise provocada pelo vírus influenza.
"A OMS tem planos de contingência para uma pandemia de influenza desde os anos 1950", lembra Siqueira.
Essa organização envolve redes de vigilância e análise laboratorial espalhados pelo mundo. O propósito aqui é detectar os vírus com rapidez, antes que ele se espalhe.
Um exemplo desses sistemas de monitoramento vem do próprio Brasil: o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação mantém a Rede Previr, que avalia a presença de patógenos em várias reservas naturais do país.
"A partir do ano passado, começamos a monitorar aves silvestres migratórias. Como o H5N1 chegou a outras partes da América do Sul, existe um risco muito grande de encontrá-lo também no Brasil", conta Durigon, que faz parte do projeto.
Vale destacar que essa versão do influenza ainda não foi detectada no país até o momento.
O Ministério da Agricultura e Pecuária também realiza análises constantes nas granjas.
"E isso é estratégico, uma vez que nosso país é um dos maiores exportadores de frango no mundo. Se o H5N1 chega aqui e afeta os produtores locais, com a necessidade de abater os animais, isso representaria um grande problema à economia", complementa o virologista do ICB-USP.
Além da vigilância constante, outra ação primordial nesse contexto é criar e testar formas de prevenção e tratamento da gripe aviária.
Nessa seara, as notícias são positivas. "Os remédios antivirais que temos à disposição são eficazes contra o H5N1 em circulação", pontua Ferreira.
As vacinas contra este influenza também já estão em desenvolvimento. No Brasil, o Instituto Butantan anunciou no início de março que já trabalha num imunizante contra esse patógeno.
"A expectativa é finalizar os testes pré-clínicos ainda neste ano e avançar para o estudo clínico [que envolve voluntários humanos] em 2024", afirma a instituição em nota publicada.
Siqueira estima que, diante dos planos de contingência elaborados nas últimas décadas, seria possível ter doses de vacina contra o H5N1 prontas para campanhas de larga escala em cinco ou seis meses.
"Não sabemos se esse vírus vai causar uma pandemia em um, cinco ou 100 anos. Mas precisamos estar preparados para isso", diz a especialista.
Do ponto de vista individual, existem algumas medidas básicas que já podem ser colocadas em prática para proteger a si mesmo — e diminuir o risco de uma pandemia futura.
"O cuidado mais importante nesse momento é não tocar ou chegar perto de uma ave morta que você vir na praia, na mata ou em qualquer lugar", orienta Siqueira.
Nesses casos, a recomendação é notificar as autoridades locais, que podem enviar funcionários com equipamentos de proteção para fazer a remoção e mandar o corpo para análise em laboratório.
E, naturalmente, os protocolos básicos de fazer a higiene das mãos e ficar afastado das atividades se estiver com sintomas de infecção respiratória continuam a valer.
"Isso é algo que foi reforçado na pandemia de COVID-19 e que precisaremos manter pelo resto das nossas vidas", conclui a microbiologista da FioCruz.

sexta-feira, 24 de março de 2023

Justiça cobra Eletronuclear por deixar de informar vazamento de material radioativo em Angra dos Reis

Link para matéria completa: https://g1.globo.com/rj/sul-do-rio-costa-verde/noticia/2023/03/23/justica-cobra-eletronuclear-por-deixar-de-informar-vazamento-de-material-radioativo-em-angra-dos-reis.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias 

Resumo: Episódio aconteceu em setembro de 2022, na Baía de Itaorna, onde fica localizada a usina nuclear de Angra 1. Ibama constatou que não houve dano à vida, mas já autuou a empresa em cerca de R$ 2 milhões. Eletronuclear se justifica. Prefeitura acompanha o caso.

A Eletronuclear deixou de avisar a autoridades responsáveis sobre um vazamento de material radioativo no mar de Angra dos Reis (RJ). O episódio aconteceu em setembro de 2022, na Baía de Itaorna, onde fica localizada a usina nuclear de Angra 1.

A pedido do Ministério Público Federal, a Justiça Federal determinou que a empresa realize uma avaliação completa dos possíveis danos causados ao meio ambiente, como contaminação de água, solo e ar, além de eventuais impactos na saúde humana e na vida das pessoas. A liminar foi divulgada nesta quinta-feira (23).

A Eletronuclear também deverá divulgar informações objetivas sobre o acidente e sobre os impactos, além de seguir as normas e licenças estabelecidas pelos órgãos regulatórios. O prazo para o cumprimento é de 30 dias.

Segundo o MPF, a postura da empresa "aponta evidências de que teria havido tentativa de esconder o vazamento, atuação que levanta dúvidas sobre a transparência e a seriedade com que a Eletronuclear trata a questão da segurança e a comunicação de incidentes".

Na liminar, a Justiça Federal também determinou que a empresa evite a realização de qualquer atividade que possa agravar a contaminação da água, solo e ar na área afetada pelo acidente, incluindo o descarte inadequado de resíduos radioativos e a utilização de equipamentos e sistemas que apresentem riscos à segurança e à saúde humana.

Ibama autua Eletronuclear em cerca de R$ 2 milhões

Procurado pelo g1, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) disse que foi informado do vazamento ainda em setembro, mas através de uma denúncia anônima, e não da Eletronuclear. Logo após tomar conhecimento, o Ibama designou uma equipe para inspecionar o local e apurar a veracidade das informações.

Na ocasião, a vistoria realizada não confirmou o vazamento, mas agentes ambientais cobraram a Eletronuclear a respeito de informações. Os documentos apresentados confirmaram o vazamento, que teria sido provocado por "degradação (corrosão) do sistema de contenção de vazamentos".

No fim de fevereiro, logo após a conclusão da análise dos relatórios apresentados pela empresa e pela CNEN, o Ibama autuou a Eletronuclear em cerca de R$ 2 milhões por descarte irregular de substância radioativa, além de R$ 101 mil por descumprimento de condicionante, estabelecida na Licença de Operação que autoriza o funcionamento da empresa.

Ainda de acordo com o Ibama, relatórios de fiscalização elaborados pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) apontam que "as ações da proteção radiológica para controle de espalhamento de contaminação foram adequadas em relação à técnica e ao tempo após e detecção do evento" e que "pode-se afirmar que nenhum limite de controle radiológico foi violado".

Ou seja, os documentos indicam que o derramamento de líquido radiologicamente contaminado não causou dano à saúde da população no entorno da usina. Para este relatório, foram realizadas análises e contabilizações radiológicas, além de coletas de água do mar e sedimento marinho.

No entanto, o Ibama constatou que a empresa descumpriu a condicionante ambiental 1.4 da Licença de Operação (LO) Nº 1217/2014, que determina que "os acidentes ambientais deverão ser comunicados via Sistema Nacional de Emergências Ambientais (SIEMA) imediatamente após o ocorrido".

O Ibama também informou ao g1 que estuda medidas adicionais para evitar que episódios semelhantes voltem a ocorrer.

O que diz a Eletronuclear

"A Eletronuclear informa que, no dia 16/09/22, a usina Angra 1 fez uma liberação não programada de um pequeno volume de água contendo substâncias de baixo teor de radioatividade. Como os valores da liberação se encontravam abaixo dos limites da legislação que caracterizam a ocorrência de um acidente, a empresa tratou o evento como incidente operacional e informou o assunto nos relatórios regulares previstos.

Inicialmente, por conta própria e depois sob demanda do Ibama, a empresa intensificou a monitoração radiológica no local de despejo das águas fluviais sem encontrar nenhum resultado significativo.

Na semana passada, a Eletronuclear recebeu do Ministério do Meio Ambiente os relatórios de fiscalização e autos de infração provenientes referentes ao assunto. A empresa respeita a avaliação dos técnicos do Ibama, mas destaca que pretende recorrer junto ao órgão, uma vez que entende ter cumprido o que determina a legislação.

domingo, 8 de janeiro de 2023

O mamífero que não envelhece e pode ser a chave para humanos vencerem o câncer

Link para matéria completa: https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2023/01/o-mamifero-que-nao-envelhece-e-pode-ser-a-chave-para-humanos-vencerem-o-cancer.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

Resumo: O rato-toupeira-pelado parece desafiar o envelhecimento e ser imune ao câncer. Os cientistas estão estudando essas estranhas criaturas nativas da África para entender como os seres humanos podem ter uma vida mais longa e saudável.


Não é segredo para ninguém que o rato-toupeira-pelado —aquele roedor enrugado e quase sem pelos, com longos dentes salientes— não é o animal mais atraente do planeta.

Mas essas criaturas compensam sua pouca beleza com uma série de características extraordinárias que vêm chamando a atenção de zoólogos e pesquisadores da medicina em todo o mundo.
Apesar do seu pequeno tamanho (que varia de 7,6 a 33 cm), o rato-toupeira-pelado vive, em média, 30 anos. O roedor é resistente a doenças crônicas, incluindo diabetes, e tem um notável sistema reprodutor.
Eles também beneficiam o meio ambiente, agindo como "engenheiros do ecossistema" e aumentando a biodiversidade do solo ao cavar as tocas onde fazem seus ninhos.
Imunes às dores e ao envelhecimento, essas criaturas de aparência estranha vêm fascinando os cientistas há muito tempo. Agora, as pesquisas estão revelando que eles podem deter a chave para entender uma série de condições humanas, como o câncer e o envelhecimento.
Historicamente, estudamos os ratos e camundongos para entender os segredos da biologia humana. Mas os cientistas acreditam que o rato-toupeira-pelado tem vantagens especiais para a pesquisa médica.
O nome científico da espécie —Heterocephalus glaber— significa essencialmente "coisa careca com cabeça diferente".
O rato-toupeira-pelado é nativo dos ambientes quentes e tropicais do nordeste da África. No seu ambiente natural, eles vivem em grandes colônias subterrâneas, formando um labirinto de túneis e câmaras que se estende por uma área correspondente a diversos campos de futebol.
As rígidas condições onde vivem os ratos-toupeiras-pelados, com baixos níveis de oxigênio, podem ser uma indicação de algumas das características incomuns da sua espécie.
A maior parte da vida aeróbica enfrentaria dificuldades para sobreviver nesses ambientes com pouco oxigênio, mas o rato-toupeira-pelado é o animal que tem a vida mais longa entre os roedores.
Enquanto um camundongo de porte similar pode viver por dois anos, o rato-toupeira-pelado atinge 30 anos de vida ou mais. Se calcularmos em proporção ao tamanho dos seres humanos, aproximadamente, seria como se nós tivéssemos um primo enrugado capaz de viver até 450 anos.

ANIMAIS SOCIAIS CHEFIADOS POR 'RAINHA'
O rato-toupeira-pelado é encontrado nas áreas selvagens do Quênia, Etiópia e da Somália. Ele vive em colônias com cerca de 70 a 80 membros. Algumas chegam a abrigar até 300 indivíduos.
São animais altamente sociais. Suas colônias são chefiadas por uma rainha e seguem uma hierarquia rígida.
Seus membros desempenham diferentes funções. Existem, por exemplo, os que trazem as partes subterrâneas das plantas, como bulbos, raízes e tubérculos que eles comem, além de fezes.
O estilo de vida subterrâneo dos ratos-toupeiras-pelados ajuda a protegê-los do frio, da chuva e de outros extremos climáticos
Os ratos-toupeiras-pelados vivem em grandes colônias subterrâneas, que reúnem até 300 indivíduos - Alamy
A biologia da espécie é incrivelmente única. Os ratos-toupeiras-pelados são considerados "extremófilos", ou seja, eles conseguem sobreviver em ambientes extremos embaixo da terra, segundo o pesquisador Ewan St. John Smith, que estuda o sistema nervoso sensorial na Universidade de Cambridge, no Reino Unido.
Uma das suas características mais marcantes é que é difícil dizer exatamente a idade de um rato-toupeira-pelado, pois seus sinais de declínio físico são limitados.
Enquanto os seres humanos podem ficar cada vez mais enrugados, grisalhos ou suscetíveis a doenças crônicas, "os sinais comuns de envelhecimento esperados na maioria dos mamíferos realmente não parecem acontecer" nesses roedores, segundo Smith. Sua função cardíaca, composição do corpo, qualidade dos ossos ou metabolismo não sofrem mudanças significativas.
Na Universidade de Cambridge, a equipe de Smith mantém cinco colônias, que abrigam cerca de 160 ratos-toupeiras-pelados em uma sala aquecida a cerca de 30 °C e umidade de 60%.
"Mantenho meus animais em Cambridge há 10 anos e nunca tive um sequer que morresse simplesmente de causas naturais", afirma Smith. Ele conta que, em cativeiro, as brigas entre os roedores costumam ser a principal causa de morte.
Seu estilo de vida subterrâneo pode aumentar suas chances de sobrevivência, protegendo as colônias contra o frio, a chuva e os extremos climáticos. No ambiente selvagem, a principal causa de morte são seus predadores, como as cobras.
É um quadro muito diferente das causas comuns de morte em seres humanos. "Um em cada dois humanos provavelmente terá câncer", segundo Smith. "Os ratos e os camundongos têm probabilidade similar de desenvolver câncer, mas os ratos-toupeiras-pelados quase nunca têm a doença —é muito raro."

Por que esse bicho escapa de doenças?
O motivo por que o rato-toupeira-pelado escapa do câncer ainda é um mistério. Inúmeras hipóteses foram apresentadas ao longo dos anos e os cientistas lutam para fornecer uma explicação consistente.
Uma teoria diz que os ratos-toupeiras-pelados têm uma forma particularmente eficaz de mecanismo anticâncer chamada senescência celular —uma adaptação evolutiva que evita que as células lesionadas se dividam fora de controle e desenvolvam câncer. Outra teoria sugere que esses roedores secretam um "superaçúcar" complexo que impede que as células se aglomerem e formem tumores.
As pesquisas mais recentes concentram-se em condições próprias dos seus corpos que impedem a multiplicação das células cancerosas. Especialistas da Universidade de Cambridge indicam que interações com o microambiente interno do rato-toupeira-pelado - o complexo sistema de células e moléculas em volta de uma célula, incluindo o sistema imunológico —evitam a doença e não um mecanismo inerente resistente ao câncer.
Em um experimento na Universidade de Cambridge, pesquisadores analisaram 79 linhagens celulares diferentes, cultivadas em tecidos do intestino, rim, pâncreas, pulmão e pele de 11 ratos-toupeiras-pelados individuais. Os pesquisadores infectaram as células com vírus modificados para introduzir genes causadores do câncer.
Para sua surpresa, as células dos ratos-toupeiras-pelados infectados começaram a multiplicar-se rapidamente. Isso confirmou que é o ambiente do corpo do roedor que evita o desenvolvimento do câncer e não uma característica em nível celular.
A questão pode ainda estar sem resposta, mas o que sabemos é que "o câncer é fundamentalmente o resultado de uma mutação, que causa a proliferação das células de forma descontrolada", afirma Smith. "Em comparação com outras espécies, o rato-toupeira-pelado tem velocidade de mutação muito baixa."
Animais com períodos de vida mais curtos tipicamente têm velocidades de mutação mais altas. Mas, inesperadamente, as velocidades de mutação dos ratos-toupeiras-pelados são similares às dos mamíferos de vida mais longa, como as girafas. E velocidade de mutação mais baixa significa que o animal é menos propenso a desenvolver mutações e câncer em um dado período de tempo.

Sem dor
Mas a característica mais estranha do rato-toupeira-pelado talvez seja sua insensibilidade à dor. "Provavelmente, é o resultado de uma adaptação evolutiva ao [seu] ambiente com alto nível de dióxido de carbono", explica Smith.
O ar que esses roedores respiram é mais rico em CO2 que o ar da atmosfera. Se esse ar exalado ficar preso em túneis subterrâneos, o teor de CO2 se acumula.
Para a maioria dos mamíferos, este seria um problema. "O dióxido de carbono reage com água para formar um ácido, chamado ácido carbônico, que pode ativar os nervos para causar dor", afirma o pesquisador.
Em muitas doenças inflamatórias, como a artrite reumatoide, as áreas de inchaço dos tecidos, muitas vezes, podem ficar ácidas e causar dor. Mas "o rato-toupeira-pelado não sente o ácido como algo doloroso, não da forma que o suco de limão ou vinagre espalhado sobre cortes da pele causa dor", explica Smith.
Ele estudou a base molecular para essa tolerância e identificou um gene que faz com que o ácido aja como anestésico, em vez de ativador dos nervos sensoriais do rato-toupeira-pelado.

Puberdade e reprodução
A professora de fisiologia e metabolismo Gisela Helfer, da Universidade de Bradford, no Reino Unido, afirma que o rato-toupeira-pelado é também o "modelo perfeito" para estudar a puberdade humana.
O rato-toupeira-pelado e o rato-toupeira-da-damaralândia são os dois únicos exemplos de mamíferos eussociais, que vivem em colônias por gerações seguidas, com uma fêmea responsável pela procriação e os demais indivíduos trabalhando juntos para sustentar a ninhada.
Como as abelhas, sua poderosa rainha governa a colônia de ratos-toupeiras, acasalando com um a três machos de cada vez. Outros indivíduos desempenham diferentes papéis, como os trabalhadores que cavam as tocas da colônia com seus dentes salientes e reúnem forragem para servir de alimento, fornecendo à rainha as raízes e bulbos que ela irá comer.
Normalmente, existe um casal fértil por colônia e o restante dos animais não passa pela puberdade, segundo Helfer. Mas, se um rato-toupeira-pelado for retirado da sua colônia, ele começará rapidamente a produzir esteroides sexuais e o animal passa pela puberdade.
"Os seres humanos têm uma longa fase pré-puberdade de cerca de oito a 12 anos", explica ela. "Quando a criança entra na puberdade, hormônios são liberados no seu cérebro e levam à produção dos hormônios sexuais, permitindo o amadurecimento do aparelho reprodutor."
Este processo espelha a progressão da puberdade entre os ratos-toupeiras-pelados, quando as fêmeas subordinadas são isoladas da rainha (a fêmea dominante) na colônia.
Já os ratos e camundongos passam pela puberdade de forma particularmente rápida, em até duas semanas após o nascimento. Por isso, eles são um modelo ruim para estudar os hormônios sexuais.
Helfer e outros cientistas estão examinando cada vez mais os ratos-toupeiras para investigar a influência dos hormônios sexuais, especialmente estrogênio e testosterona, além dos cromossomos sexuais.
Esta informação pode lançar uma luz sobre os tratamentos médicos, como bloqueadores da puberdade, terapia de substituição hormonal, fertilização in vitro e tratamento da menopausa —questões que, segundo Helfer, "estão na linha de frente da saúde no momento".

'Incrível inteligência' e 'hábitos malucos'
Helfer acha fascinantes os ratos-toupeiras-pelados que ela mantém na Universidade de Bradford, devido à sua "incrível inteligência" e a alguns hábitos "malucos".
Ela conta que, dentro das suas colônias altamente organizadas, os roedores têm câmaras de nidificação para dormir e banheiros para manter seus habitats limpos. E, quando os filhotes nasceram, ela ficou surpresa ao ver que a colônia havia criado uma "creche", para cuidar dos jovens animais.
Eles também "se movem para frente e para trás com a mesma rapidez" e raramente usam seus pequenos olhos redondos, preferindo confiar nos seus bigodes sensoriais para orientar-se embaixo da terra, segundo explica a professora.
Os ratos-toupeiras-pelados também têm formas características de comunicação entre si, determinando quem é amigo ou estranho por meio de diversos dialetos, de forma muito similar aos seres humanos.
Seu "chilro" clássico transmite informações exclusivas do grupo do animal. Um estudo indica que ele é aprendido culturalmente, não pela genética. Os ruídos referem-se frequentemente à rainha e filhotes resultantes de cruzamento adotam o tom da colônia que os criou, que pode mudar em caso de substituição da rainha.
Um estudo mapeou 18 vocalizações diferentes, incluindo chamados de alarme, de solicitação de alimento, de acasalamento e de organização do banheiro. Quando os predadores se aproximam, os animais usam diversos chamados de alarme diferentes para defender a colônia.
Outra forma de cooperação entre os ratos-toupeiras-pelados como colônia é por meio da agricultura sustentável.
Os horários das refeições envolvem trazer para suas tocas grandes tubérculos, como batatas-doces, para que sejam roídos com outros membros da colônia. Cada refeição pesa até 50 kg.
Os ratos-toupeiras removem as camadas externas venenosas da planta, comem sua refeição e preenchem a parte consumida com solo, para que o tubérculo se regenere, tornando-se outra refeição posteriormente.
De fato, sua comunicação complexa, vida longa, coesão social e administração cuidadosa dos recursos alimentícios fazem com que os ratos-toupeiras-pelados demonstrem fortes sinais de alta inteligência.
E essas criaturas exibem outras características notáveis. As pesquisas são limitadas, mas, na África do Sul, o rato-toupeira comum e o rato-toupeira-do-cabo receberam o título de "engenheiros do ecossistema".
Na Reserva de Flores Wayland em Darling, a cerca de 60 km ao norte da Cidade do Cabo, encontra-se um dos melhores locais do mundo para a biodiversidade, repleto de flores silvestres, abelhas e outros insetos.
Como parte do seu pós-doutorado na Universidade de Pretória, na África do Sul, Nicole Hagenah estudou o papel desempenhado por duas espécies diferentes de ratos-toupeiras —o comum e o rato-toupeira-do-cabo - para ajudar a melhorar os solos ricos e férteis da região.
Seu estudo durou três anos e ela concluiu que, ao escavar seus túneis, as duas espécies de ratos-toupeiras descartavam o solo escavado, depositando-o na forma de montes sobre a superfície.
Esses montes continham níveis mais altos de nutrientes, especialmente nitrogênio, em comparação com o solo existente sobre a superfície.
"Acreditamos que isso ocorre porque o solo subterrâneo que foi empurrado continha material vegetal não comido decomposto e, talvez, fezes e urina", afirma Hagenah. O solo dos montes também era menos compacto que o solo das proximidades.
Portanto, os ratos-toupeiras comuns e do cabo ajudaram as plantas de duas formas.
"Primeiro, as plantas precisam de nutrientes para crescer e um dos nutrientes mais importantes para as plantas é o nitrogênio", explica a pesquisadora. "Segundo, o monte menos compacto pode ter facilitado a penetração da água no solo, o que também é benéfico para as plantas, que precisam de água."

A importância —e as dificuldades— dos estudos
Por mais extraordinários que sejam os ratos-toupeiras-pelados, biologicamente falando, eles não são a espécie mais simples para observar e trabalhar, o que significa que relativamente poucos grupos de pesquisa em todo o mundo estudam esta espécie incrível.
"Embora sua biologia extrema seja fascinante e forneça grandes conhecimentos, não é fácil para todos formar sua própria instalação de pesquisa para esta espécie", afirma Smith.
Além da logística de reprodução de ambientes quentes e úmidos, o ciclo de vida de um rato-toupeira-pelado é mais longo que o dos ratos ou camundongos. Normalmente, leva 75 dias para o nascimento e existe apenas um casal se reproduzindo, o que resulta em longo tempo de espera para planejar experimentos.
Por este motivo, Smith criou a Iniciativa do Rato-Toupeira-Pelado, para colaborar com especialistas em outros campos da medicina, como o tratamento do câncer, e usar seus animais para sustentar novas linhas de pesquisa.
As colônias de ratos-toupeiras-pelados de Smith, se viverem sua idade natural completa, provavelmente ultrapassarão a carreira do pesquisador.
"Muito poucas pessoas do mundo têm muitos ratos-toupeiras-pelados com mais de 30 anos de idade", afirma ele. "Os animais que nasceram nas minhas colônias na semana passada, por exemplo, só atingirão seu período de vida máximo depois que eu me aposentar."
Se os cientistas conseguirem desvendar por que esses mamíferos extremófilos vivem uma vida saudável, eles poderão "traduzir" esse conhecimento em tratamentos preventivos ou medicações que tratem o câncer depois que ele surgir, segundo Smith. E pode também haver outros benefícios na pesquisa desses animais altamente incomuns, alguns dos quais dificilmente podem ser previstos.
Smith usa como exemplo os testes de PCR para detectar Covid-19.
"A razão pela qual os testes de PCR funcionam é porque eles usam uma enzima que foi extraída de uma espécie de bactéria que vive nos respiradouros térmicos do Parque Yellowstone [nos Estados Unidos]", explica ele. "Viver em altas temperaturas significa que as enzimas da bactéria evoluíram para que ficassem estáveis sob altas temperaturas, quando as reações biológicas acontecem com mais rapidez."
"Se não estudarmos a biologia em condições extremas, acabamos perdendo algumas coisas", conclui Smith.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Nobel de Medicina 2022 vai para Svante Pääbo por descobertas sobre o genoma de ancestrais humanos extintos

Link para texto completo: https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2022/10/03/nobel-de-medicina-2022-vai-para-svante-paabo.ghtml

Resumo: O sueco Svante Pääbo é o ganhador do Prêmio Nobel 2022 em Medicina, anunciou a Assembleia do Nobel no Instituto Karolinska, da Suécia, nesta segunda-feira (03/10/2022). Pääbo levou o prêmio, que totaliza 10 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 4,8 milhões), por suas descobertas sobre os genomas de hominídeos extintos e a evolução humana. Em 1982, o pai do cientista, Sune Bergstrom, também ganhou o Nobel de Medicina.

Ao explicar as diferenças genéticas que distinguem todos nós seres humanos vivos desses ancestrais já extintos, o trabalho de Svante Pääbo deu origem a um campo científico totalmente novo: a paleogenética. "Suas descobertas fornecem a base para explorar o que nos torna exclusivamente humanos", afirmou o comitê.

As descobertas

O comitê do Nobel afirmou que o cientista sueco levou o prêmio porque realizou algo aparentemente impossível: sequenciou o genoma do Homem de Neandertal, um parente extinto dos seres humanos de hoje em dia. Fora isso, um hominídeo anteriormente desconhecido, o Denisova, também foi descoberto por Svante Pääb.

A evolução humana e a disseminação dos humanos pelo mundo foram temas exploradas ao longo dos anos pelo trabalho do cientista sueco. Pääbo também descobriu que a transferência de genes ocorreu desses hominídeos agora extintos para o Homo sapiens (a espécie à qual pertencemos) após a saída migratória humana da África há cerca de 70.000 anos, uma informação importante que ajuda a entender como o mundo era povoado nessa época.

Como o DNA (a molécula de de informação genética de um organismo) se modifica quimicamente e se degrada em pequenos fragmentos ao longo do tempo, identificar o genoma desses ancestrais humanos não foi uma tarefa fácil.

O cientista sueco teve que utilizar métodos genéticos modernos e analisar o DNA de mitocôndrias de neandertais (pequenas estruturas encontradas em células e que são responsáveis pela produção de energia) de um pedaço de osso de 40.000 anos.

Como o genoma mitocondrial contém uma fração da informação genética da célula, Pääbo conseguiu então sequenciar, pela primeira vez, uma região do DNA de um ancestral humano extinto. Esses resultados mostraram que os neandertais têm características distintas que não são encontradas encontradas em humanos modernos e chimpanzés.

Ainda de acordo com o comitê, o cientista levou a láurea de Medicina deste ano porque essas descobertas são fundamentais para o entendimento de como o nosso sistema imunológico reage a infecções. Isso porque a paleogenética revela como a sequências de genes ancestrais de nossos parentes extintos influenciam o funcionamento do corpo humano.

Na população tibetana de hoje em dia, por exemplo, um certo tipo de gene (EPAS1) encontrado entre os hominídeos de Denisova há 50 mil anos confere uma vantagem de sobrevivência em grandes altitudes e é bastante comum entre os tibetanos.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

O vírus que destrói câncer e pode revolucionar tratamento de tumores avançados.

Link para matéria completa: https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2022/09/23/o-virus-que-destroi-cancer-e-pode-revolucionar-tratamento-de-tumores-avancados-segundo-cientistas.ghtml

Resumo: Um novo tipo de tratamento contra o câncer que usa um vírus comum para infectar e destruir células nocivas está se mostrando bastante promissor nos primeiros testes em humanos, dizem cientistas do Reino Unido. O câncer de um paciente desapareceu, enquanto outros viram seus tumores encolherem.

A droga é uma forma enfraquecida do vírus da herpes — herpes simplex — que foi modificado para matar tumores. Estudos maiores e mais prolongados são necessários, mas especialistas dizem que a injeção pode, por fim, oferecer uma tábua de salvação para mais pacientes com câncer avançado.

Krzysztof Wojkowski, um construtor de 39 anos do oeste de Londres, é um dos pacientes que participaram da fase 1 do teste de segurança em andamento, administrado pelo Instituto de Pesquisa do Câncer do Royal Marsden NHS Foundation Trust. Ele foi diagnosticado em 2017 com câncer nas glândulas salivares, perto da boca. Apesar da cirurgia e de outros tratamentos na época, seu câncer continuou a crescer. "Me disseram que não havia mais opções para mim, e que eu estava recebendo cuidados de fim de vida. Foi devastador, então foi incrível ter a chance de participar do estudo".

Um curto curso da terapia baseada no vírus — que é uma versão especialmente modificada do vírus da herpes que normalmente causa herpes labial — parece ter eliminado o tumor. "Tomei injeções a cada duas semanas durante cinco semanas que erradicaram completamente meu câncer. Estou livre do câncer há dois anos."

As injeções, aplicadas diretamente no tumor, atacam o câncer de duas maneiras — invadindo as células cancerosas e fazendo-as romper, e ativando o sistema imunológico. Cerca de 40 pacientes tentaram o tratamento como parte do estudo. Alguns tomaram apenas a injeção de vírus, chamada RP2. Outros tomaram ainda outro medicamento contra o câncer — chamado nivolumab. Os resultados, apresentados em uma conferência médica em Paris, na França, mostram que:

  • Três em cada nove pacientes que tomaram apenas RP2, incluindo Krzysztof, viram seus tumores encolherem;
  • Sete em cada 30 que receberam tratamento combinado também pareceram se beneficiar;
  • Os efeitos colaterais, como cansaço, foram leves em geral.
  • O principal pesquisador do estudo, Kevin Harrington, disse à BBC que as respostas ao tratamento observadas foram "verdadeiramente impressionantes" em uma variedade de cânceres avançados, incluindo câncer de esôfago e um tipo raro de câncer de olho.

"É raro ver taxas de resposta tão boas no estágio inicial de ensaios clínicos, pois seu objetivo principal é testar a segurança do tratamento, e envolve pacientes com câncer muito avançado para os quais os tratamentos atuais pararam de funcionar", afirmou. "Estou ansioso para ver se vamos continuar a ver benefícios à medida que tratamos um número maior de pacientes".

Não é a primeira vez que cientistas usam um vírus para combater o câncer. O NHS, sistema de saúde público do Reino Unido, aprovou um tratamento baseado no vírus do resfriado, chamado T-Vec, para câncer de pele avançado há alguns anos. Harrington chama o RP2 de uma versão turbinada do T-Vec. "Teve outras modificações no vírus para que, ao entrar nas células cancerígenas, efetivamente assine sua sentença de morte".

Marianne Baker, da organização Cancer Research UK, disse que as descobertas encorajadoras podem mudar o curso do tratamento do câncer. "Os cientistas descobriram que os vírus podem ajudar a tratar o câncer há 100 anos, mas tem sido um desafio aproveitá-los com segurança e eficácia."

"Esta nova terapia viral se mostrou promissora em um teste inicial de pequena escala — agora precisamos de mais estudos para descobrir como funciona."

"A pesquisa sugere que combinar vários tratamentos é uma estratégia poderosa, e terapias de vírus como esta podem se tornar parte do nosso kit de ferramentas para vencer o câncer".

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Robô da Nasa encontra moléculas orgânicas em Marte.

Link para matéria completa: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2022/09/15/robo-da-nasa-encontra-moleculas-organicas-em-marte.htm

Resumo: O robô Perseverance, da Nasa, encontrou na superfície de Marte rochas que contêm moléculas orgânicas. Os compostos foram achados em fragmentos de uma crista de um metro de altura batizada como "Wildcat" ("Gato selvagem") e situada na cratera Jezero, que há bilhões de anos abrigou o delta de um rio hoje extinto. Segundo a Nasa, o Perseverance desgastou a superfície da rocha para analisá-la com um instrumento chamado "Sherloc", sigla em inglês para Scanner de Ambientes Habitáveis com Raman e Luminescência para Orgânicos e Químicos, mas que também faz referência ao célebre personagem de histórias de detetive Sherlock Holmes.

"A análise do Sherloc indica que as amostras apresentam uma classe de moléculas correlacionadas àquelas dos minerais sulfetos. Os minerais sulfetos encontrados em rochas sedimentares podem fornecer informações significativas sobre o ambiente aquoso no qual se formaram", diz a Nasa. Moléculas orgânicas são compostos formados principalmente por carbono e que normalmente incluem átomos de oxigênio e hidrogênio, mas que também podem conter outros elementos, como nitrogênio, fósforo e enxofre.

"A presença dessas moléculas é considerada uma potencial bioassinatura, ou seja, uma substância ou estrutura que pode ser uma evidência de vida passada, mas que também pode ter sido produzida sem a presença de vida", acrescenta a agência. Moléculas orgânicas são possíveis "tijolos" na construção de moléculas biológicas, porém também podem se formar através de reações químicas.

Em 2013, o rover Curiosity já tinha encontrado evidências de matéria orgânica em amostras de pó de rocha, assim como o Perseverance, mais recentemente, na própria cratera Jezero. A diferença, segundo a Nasa, é que, desta vez, a descoberta ocorreu em uma área onde, em um passado distante, sedimentos e sais foram depositados em um lago onde a vida pode ter existido.

"No passado distante, a areia, a lama e os sais que agora compõem a amostra da Crista Wildcat foram depositados sob condições em que a vida pode ter prosperado", declarou Ken Farley, cientista do projeto Perseverance. "O fato de que matéria orgânica tenha sido encontrada em uma rocha sedimentar - tipo conhecido por preservar fósseis de vida antiga na Terra - é importante. No entanto, por mais capazes que sejam os instrumentos a bordo do Perseverance, novas conclusões terão de esperar até a amostra retornar para a Terra", ressaltou.

A Nasa planeja enviar uma missão para buscar as amostras coletadas pelo Perseverance até o fim da década.

sábado, 10 de setembro de 2022

Paleontólogos brasileiros e britânicos identificam no RS o mais antigo mamífero da Terra

Link para matéria completa: https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2022/09/10/paleontologos-brasileiros-e-britanicos-identificam-no-rs-o-mais-antigo-mamifero-da-terra.ghtml

Resumo: Um grupo de pesquisadores brasileiros e ingleses conseguiu estabelecer que pequenos fósseis encontrados no Rio Grande do Sul no início dos anos 2000 são os mamíferos mais antigos do planeta Terra. A descoberta foi publicada nesta terça-feira (6/9/2022) no periódico inglês Journal of Anatomy.

Os estudos foram realizados com as dentições dos Brasilodon quadrangularis, encontrados em rochas fossilíferas do período Triássico/Noriano, datadas como tendo aproximadamente 225 milhões de anos. Os materiais foram encontrado inicialmente em Faxinal do Soturno, na Região Central do Rio Grande do Sul, e depois em outros pontos do RS. Os pequenos brasilodontídeos tinham apenas 20 cm de comprimento e se assemelhavam aos pequenos roedores atuais.
"Os materiais foram encontrados no início dos anos 2000, mas não tinham uma identidade estabelecida como mamíferos, eles estavam estabelecidos como répteis, estavam fora do quadro mamário", explica o paleontólogo Sergio Furtado Cabreira, doutor em Geologia pelo Programa de Pós-Graduação em Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
O pesquisador foi orientado pelo professor Cesar Leandro Schultz, que também assina o trabalho ao lado de pesquisadores de diferentes instituições e áreas.
Cabreira explica que o animal foi descrito desde 2003 na literatura internacional pelo paleontólogo José Bonaparte, mas que, naquele momento, "inexistiam ferramentas acadêmicas para analisar a biologia do animal". Os pesquisadores criaram, então, um novo método que consiste em analisar a dentição de um conjunto de três mandíbulas.
"Nossa pesquisa demonstrou, através de análises de microscopia das mandíbulas e dos dentes, que estes pequenos animais já apresentavam difiodontia, isto é, apenas uma dentição permanente substituindo a dentição de leite”, explica Cabreira. Dessa forma, foi possível constatar que a substituição dos dentes ocorreu dentro de um "padrão tipicamente mamariano placentário", explica.
O pesquisador afirma que o grupo começou a estudar o material em 2004 e, "ao longo dos últimos anos a gente vem agregando ferramentas teóricas para que pudéssemos interpretar as lâminas histológicas". Ele destaca que mandíbula do animal tem cerca de 2 centímetros.


A pesquisa analisou a mandíbula dos animais — Foto: Rochele Zandavalli / UFRGS

A descoberta
De acordo com Cabreira, a descoberta muda o paradigma do que era entendido até então como os primeiros caracteres mamarianos. "Os métodos atuais de classificação do que é um mamífero vão ter que se readequar", afirma o pesquisador, incluindo a bibliografia acadêmica sobre a genética da origem dos mamíferos.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Saúde prorroga campanha de vacinação contra pólio por baixa adesão

Link para matéria completa: https://www.tecmundo.com.br/ciencia/246244-saude-prorroga-campanha-vacinacao-polio-baixa-adesao.htm

Resumo: Devido à baixa adesão, o Ministério da Saúde decidiu na segunda-feira (05/09/2022) prorrogar a Campanha Nacional de Vacinação contra a poliomielite, que seria encerrada na próxima sexta-feira, para o dia 30 de setembro. O foco da campanha é não apenas vacinar crianças de 1 a 4 anos com as primeiras doses, mas também incentivar a aplicação da dose de reforço em crianças mais velhas.

A quatro dias do final do esforço nacional de imunização, somente 34,4% das crianças entre seis meses e 4 anos 11 meses e 29 dias de idade haviam se vacinado até a segunda-feira (5), segundo a Agência Brasil. O número representa apenas 3,9 milhões de doses, mostrando que uma multidão de 7,5 milhões de crianças ainda não foram vacinadas contra a paralisia infantil no país.

Com a medida, o Ministério prorrogou igualmente a campanha de multivacinação, que acontece de forma concomitante à da pólio, e que tem como objetivo recuperar a cobertura vacinal de crianças e adolescentes que deixaram de tomar, durante o período da pandemia, os imunizantes previstos no calendário nacional de vacinação.

Embora a poliomielite tenha certificado de erradicação no Brasil desde 1994, a baixa cobertura vacinal dos últimos anos fez com que a doença contagiosa aguda continue sendo prioritária na campanha de vacinação. Atualmente, a prefeitura de Rorainópolis, em Roraima, está investigando um caso suspeito da doença que, em formas graves, leva à paralisia dos membros inferiores.

Além da Vacina Inativada Poliomielite (VIP), mais 17 imunizantes estão disponíveis para que crianças e adolescentes de até 15 anos atualizem suas cadernetas de vacinação.

sábado, 3 de setembro de 2022

Vazamento de Hidrogênio: NASA suspende novamente o lançamento da missão à Lua

Link para matéria completa: https://canaltech.com.br/espaco/artemis-i-nasa-suspende-novamente-o-lancamento-da-missao-a-lua-224607/

Resumo: A NASA suspendeu novamente, na manhã deste sábado (3/9/2022) o lançamento da missão Artemis I, o primeiro passo em seu ambicioso programa de retorno à Lua.
Desta vez o motivo foi um vazamento de hidrogênio em uma linha de engate rápido que abastece um dos tanques de combustível. A falha foi detectada durante o abastecimento do estágio central do foguete SLS, por volta das 8h30 da manhã, e apesar de múltiplas tentativas não pôde ser resolvida.
O mesmo vazamento já havia se manifestado na tentativa anterior na segunda-feira (29), mas foi corrigido. O motivo do cancelamento naquela data foi outro: um dos 4 motores do estágio central do foguete não atingiu a temperatura necessária para o lançamento, de cerca de -215 ºC. O motor precisa ser resfriado para evitar choque térmico quando o combustível, em temperatura criogênica (-253 ºC), começar a circular por ele.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Amazônia perdeu o equivalente a dez vezes o estado do Rio de Janeiro em 37 anos, aponta MapBiomas

Link para matéria completa: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2022/09/03/amazonia-perdeu-o-equivalente-a-dez-vezes-o-estado-do-rio-de-janeiro-em-37-anos-aponta-mapbiomas.ghtml

Resumo: A Amazônia perdeu o equivalente a 12% de florestas nos últimos 37 anos, de acordo com o levantamento do MapBiomas, divulgado nesta sexta-feira (02/09/2022). A atualização dos dados sobre uso e cobertura da terra de 1985 a 2021 demonstrou que 44 milhões de hectares foram perdidos. O desmatamento é o equivalente a dez vezes a área de todo o estado do Rio de Janeiro.

Durante esses anos, 44,5 milhões de hectares foram convertidos para agropecuária, atividade que representa o principal vetor de desmatamento da região. Em 2021, a agropecuária ocupava 15% do bioma.

“O atual modelo de desenvolvimento econômico, baseado na conversão descontrolada de áreas de vegetação natural, coloca o Brasil frente a graves problemas no atual cenário de mudanças do clima”, explica Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas.

Dentre todos os estados que compõem a Amazônia Legal, o Pará foi o mais desmatado, com 35,2% das florestas convertidas em áreas de agricultura ou pastagem. O estado também tem uma estrada ilegal que atravessa áreas protegidas.

Perda de água e avanço do garimpo

Ainda de acordo com o levantamento, a Amazônia perdeu 14,5% de água, sendo Roraima o estado mais afetado. Em 25 anos houve uma redução de 53%.

Outro ponto de atenção é o avanço do garimpo. Em 2021, a atividade respondeu por três em cada quatro hectares (74%) mapeados como mineração na Amazônia. Dos pouco mais de 217 mil ha de área minerada no bioma, 64% foram mapeados no estado do Pará. Esse estado é também o que registrou maior expansão urbana nos últimos 37 anos.

Pouco mais da metade (54,3%) das áreas florestais remanescentes estão em áreas legalmente protegidas, como Terras Indígenas e Unidades de Conservação (exceto APA) – percentual semelhante ao das formações campestres que estão dentro de áreas protegidas (58,7%).

"Os recentes recordes de desmatamento e de queimadas comprovam que a Amazônia não está protegida. É importante ressaltar que não se trata apenas de desmatamento: parte da floresta remanescente está degradada. Esse processo coloca a floresta mais perto do ponto de inflexão a partir do qual ela entra em colapso", alerta Luis Oliveira Jr., que integra a equipe Amazônia do MapBiomas

Em julho deste ano, a divulgação do segundo o Relatório Anual de Desmatamento no Brasil (RAD), do MapBiomas demonstrou que só nos últimos três anos (2019-2021) o Brasil perdeu quase um Estado do Rio de Janeiro de vegetação nativa.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Como se formam os 'rastros de nuvem' que aviões deixam no céu?

Link para matéria completa: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-62753292

Resumo: Após as primeiras observações no início do século 20, a causa exata dos rastros de nuvens deixados pelos aviões foi motivo de debate por décadas, segundo Ulrich Schumann, professor de física atmosférica do Centro Aeroespacial Alemão (DLR, na sigla em alemão).

As primeiras teorias propuseram que os rastros seriam vibrações do motor do avião ou efeitos de cargas elétricas. Outros imaginaram se elas ocorreriam devido ao vapor d'água supersaturado, mas isso foi descartado porque se acreditava que a quantidade de vapor emitida seria insuficiente.

Descobrir as causas dos rastros dos aviões não foi uma grande preocupação até a Segunda Guerra Mundial, quando eles foram considerados um problema pela primeira vez.

"Eles [os rastros] revelam a posição das aeronaves. Você pode ver o rastro de um avião durante o voo", afirma Schumann. "Por isso, durante a Segunda Guerra Mundial, os militares tentaram evitar os rastros de nuvens porque queriam impedir a visibilidade das suas aeronaves."

As primeiras explicações corretas sobre a formação dessas nuvens foram elaboradas no início dos anos 1940 e 50. Foi quando surgiu o que agora é conhecido como critério de Schmidt-Appleman, que demonstra que as condições para formação dependem da pressão ambiente, da umidade e da relação entre a água e o calor liberados pelo avião.

Em resumo, os rastros dos aviões — chamados em inglês de contrails, abreviação de "trilhas de condensação" — são nuvens de partículas de gelo em formato linear que se formam depois da passagem das aeronaves. Eles podem ter de 100 metros a vários quilômetros de comprimento.

Três coisas são necessárias para que os rastros se formem: vapor d'água, ar frio e partículas sobre as quais o vapor d'água possa condensar-se.

O vapor d'água é produzido pelos aviões quando o hidrogênio do combustível reage com o oxigênio do ar. Em condições frias (tipicamente, abaixo de cerca de -40 °C), ele pode condensar-se, normalmente sobre as partículas de fuligem também emitidas pelos motores das aeronaves, em uma nuvem de gotículas que se congelam para formar partículas de gelo.

De forma geral, o processo relembra o congelamento da respiração em um dia frio de inverno, segundo Schumann.

Nem todas as aeronaves produzem rastros de nuvens. Estima-se que eles ocorram em cerca de 18% dos voos. É preciso que o ar esteja suficientemente frio para que a água congele e, por isso, eles normalmente aparecem apenas acima de certas altitudes — tipicamente, 6 km, ou 20 mil pés.

E a quantidade de voos que produz os rastros de nuvens mais persistentes é ainda menor. Quando o ar é limpo e sem nuvens, os rastros desaparecem rapidamente, pois o ar seco ambiente causa a sublimação das partículas de gelo (elas passam do estado sólido diretamente para o gasoso).

Mas se a atmosfera estiver úmida, as partículas de gelo não conseguem sublimar-se e os rastros podem durar por muito mais tempo.

"Os rastros podem durar apenas alguns minutos se o ar à sua volta for seco, mas, quando for úmido, eles podem persistir e espalhar-se para aumentar a formação de cirros", afirma Tim Johnson, diretor da organização sem fins lucrativos Aviation Environment Federation (AEF), com sede no Reino Unido.

Ele acrescenta que isso é importante porque os rastros de nuvens e o aumento da captura do calor irradiado pela Terra nas nuvens contribuem com o aquecimento do nosso planeta. E esse aquecimento é somado ao outro importante impacto climático da aviação — o CO2 lançado em imensas quantidades pelo escapamento dos aviões, que representa cerca de 2,5% das emissões globais de gás carbônico.

Mas o impacto climático dos rastros dos aviões é muito mais complicado que o das emissões de CO2.


O efeito sobre o aquecimento global

Nos anos 1960, começaram a surgir os primeiros estudos observando que os rastros dos aviões poderiam ter um efeito sobre a Terra, mas de resfriamento, segundo Schumann.

Isso ocorre porque o tom de branco das nuvens induzidas pelos rastros dos aviões reflete a luz solar para longe da superfície da Terra durante o dia, de forma similar aos cirros, que são nuvens naturais também compostas de cristais de gelo.

Mas os cientistas logo perceberam que os rastros de nuvens dos aviões também podem ter efeito de aquecimento da Terra, por meio de um efeito "estufa" de captura da luz infravermelha. "Eles capturam o calor emitido pela superfície da Terra e emitem parte dele de volta para a superfície", afirma Schumann. Este processo é similar à forma como os céus nublados produzem nuvens mais quentes.

Dependendo das condições exatas, um desses efeitos opostos pode sair vencedor. Rastros de nuvens formados sobre um cenário coberto de neve, por exemplo, não aumentam o resfriamento com a reflexão da luz solar, pois a superfície já é branca e refletora. Os rastros dos aviões também aquecem mais à noite, pois não há luz solar para ser refletida por eles. Por isso, o único efeito que ocorre é o de aquecimento.

Tudo isso, aliado à dificuldade de compreensão das condições atmosféricas exatas que formam os rastros dos aviões e sua diferenciação dos cirros naturais depois que eles se espalham pelo céu, faz com que a definição de números exatos sobre o impacto climático dos rastros de nuvens dos aviões seja algo complicado.

Mas a compreensão atual é de que "em média, em todos os países do mundo, ao longo de um ano, os rastros dos aviões aquecem", segundo Schumann.

O último estudo importante sobre o impacto climático dos rastros de nuvens, publicado em 2020, estimou que os impactos da aviação não relacionados ao CO2 — basicamente, os rastros de nuvens — triplicam a "promoção radiativa" das emissões de CO2 isoladamente.

De certa forma, esta é uma comparação capciosa, já que os efeitos de aquecimento dos rastros dos aviões e do CO2 ocorrem em horizontes temporais muito diferentes. "Os rastros de nuvens têm um esforço promotor muito forte, muito mais forte que o CO2. Mas os rastros têm vida curta e desaparecem após cerca de uma hora. Já o CO2 permanece por muito tempo — ele pode permanecer por 100 anos", explica Schumann.

A solução

Ainda assim, os cientistas alertaram que o efeito de captura de calor dos rastros de nuvens poderá triplicar até 2050, se nenhuma medida for tomada. A boa notícia é que esta pode ser, na verdade, uma ação razoavelmente simples. Pesquisadores demonstraram que apenas 2,2% dos voos contribuem com 80% dessa promoção e ajustes relativamente pequenos das altitudes desses voos — com baixo custo de combustível — poderão reduzir enormemente o efeito de aquecimento dos rastros de nuvens.

Pesquisas indicaram ainda que a formação de rastros de nuvens pode também ser reduzida diminuindo-se a quantidade de partículas de fuligem emitidas pelos voos, pois elas fornecem os núcleos onde se formam os cristais de gelo.

Evitar voar através de ar muito úmido, onde podem formar-se rastros de nuvens persistentes, é a medida mais importante neste processo, segundo Schumann, passando-se a voar acima, abaixo ou em volta dessas regiões. Mas ele afirma que são necessárias melhores previsões do tempo para possibilitar esta medida. "As previsões meteorológicas que temos hoje em dia não são suficientemente precisas para este propósito", segundo ele.

Em carta à revista Nature em 2021, dois pesquisadores argumentaram que o ajuste das altitudes de voo para minimizar a formação de rastros de nuvens poderá ser uma das medidas climáticas mais econômicas que podem ser tomadas.

Eles calculam que evitar os rastros de nuvens mais prejudiciais custaria US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,1 bilhões) por ano, com benefício de mais de mil vezes este valor. "Não conhecemos nenhum investimento climático comparável com probabilidade tão alta de sucesso", escreveram eles.

Mas, embora os governos reconheçam os desafios climáticos impostos pelos rastros dos aviões, poucas ações políticas foram tomadas até agora, segundo Tim Johnson. "Todos os objetivos climáticos definidos para o setor pela indústria, pelos países e pelas Nações Unidas referem-se apenas ao CO2", explica ele. "O debate sobre a incerteza científica e medições apropriadas é frequentemente mencionado como razão para dedicar maiores pesquisas em vez de ações."

No Reino Unido, os consultores governamentais sobre mudanças climáticas afirmaram que efeitos não relativos ao CO2, como os dos rastros de nuvens dos aviões, precisam ser objeto de maior atenção.

Observar esses efeitos agora é essencial, especialmente considerando como as tecnologias do futuro, como o hidrogênio, podem reduzir as emissões do setor, segundo Johnson.

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Pesquisa da UFU revela eficácia das formigas para o controle de pragas em lavouras

Link para matéria completa: https://g1.globo.com/mg/triangulo-mineiro/noticia/2022/08/28/pesquisa-da-ufu-revela-eficacia-das-formigas-para-o-controle-de-pragas-em-lavouras.ghtml

Resumo: Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) constatou que as formigas podem diminuir a abundância de alguns grupos de pragas e aumentar a produtividade das colheitas. A descoberta, publicada no jornal britânico The Guardian, indica que o uso desses animais nas lavouras pode ser mais eficaz que a aplicação de pesticidas.

A pesquisa foi liderada pelo aluno do Programa de Pós-Graduação em Ecologia, Conservação e Biodiversidade (PPGECO), Diego Anjos, com o apoio de professores da UFU e de universidades de São Paulo e do exterior. "Já estamos investigando as formigas como protetoras das plantas há um tempo. Porém, sempre em ambientes naturais. Como esses ambientes têm sido transformados em plantações, nosso estudo buscou sintetizar o papel das formigas em plantações”, explicou Anjos em entrevista ao portal Comunica UFU.


Para a pesquisa, foram analisadas 26 espécies de formigas. Segundo o pesquisador, embora as formigas também possam ter efeitos negativos, como a diminuição de inimigos naturais das pragas, os serviços e os benefícios delas superam os efeitos negativos, o que faz com que sejam uma solução mais sustentável do que o uso de pesticidas.

“Em geral, com um manejo adequado, as formigas podem ser úteis no controle de pragas e aumentar a produtividade das colheitas ao longo do tempo. Algumas espécies têm eficácia semelhante ou maior do que os pesticidas. Além disso, elas podem ser usadas juntamente com o manejo integrado de pragas: quando as formigas sozinhas não são suficientes”, complementou.

Ainda segundo o estudo, foi constatado que a proteção vegetal proporcionada pelas formigas é impulsionada mais nas agroflorestas do que nas monoculturas.

Com isso, essa técnica pode estimular os agricultores a utilizarem práticas mais sustentáveis, como o controle biológico, e práticas agroflorestais, como uma forma de promover naturalmente as formigas nos sistemas de cultivo.